O projecto “Tauromaquia, Património Cultural de Portugal” foi um dos vencedores do Orçamento Participativo de Portugal, numa iniciativa lançada pelo Governo e em que estiveram a concurso mais de 600 projectos, 601 sendo concreto. Este projecto foi liderado por representantes da Associação Nacional de Tertúlias Tauromáquicas, contando com o apoio da Prótoiro – Federação Portuguesa de Tauromaquia e da marca Touradas.

O Toureio.pt entrevistou Luis Capucha, presidente da Associação Nacional de Tertúlias Tauromáquicas, que revelou como foi todo este processo, quais os desafios, o que está previsto e é pretendido ser feito e também uma abordagem ao actual momento da Festa Brava em Portugal.

Toureio.pt (T) - Recentemente o projeto "Tauromaquia, Património Cultural de Portugal" foi um dos vencedores do Orçamento Participativo de Portugal, perguntava-lhe como surgiu este projeto?

Luis Capucha (LC) - O governo lançou e anunciou que iria decorrer o Orçamento Participativo, no qual os cidadãos poderiam apresentar propostas nas áreas da Cultura, da Educação de Adultos e da Agricultura que, a serem votadas, poderiam envolver uma afetação do Orçamento de Estado até 200 mil Euros. Como um dos objetivos Estatutários da Associação de Tertúlias Tauromáquicas de Portugal (ATTP) é o registo da Tauromaquia como Património Cultural Imaterial da UNESCO, e porque sabemos que o trabalho a realizar com esse fim é muito vasto e complexo, resolveu a Direção e a Assembleia Geral da ATTP elaborar e apresentar um projeto nesta área. Afinal, a Tauromaquia é uma cultura, oficialmente reconhecida como tal pela legislação portuguesa, e não há nenhuma razão para não existir esse reconhecimento, que de resto a protege de todos os ataques cobardes que lhe têm sido movidos.

T - Quem foi o mentor do projecto e quando surgiu a ideia?

LC - A ideia surgiu mal se soube da existência do Orçamento Participativo e os mentores foram a Direção e a Assembleia Geral da ATTP. Eu, como Presidente da Direção, o Vice-Presidente João Costa e o sócio Marco Gomes fomos mandatados para subscrever a proposta, já que as regras só permitem candidaturas de cidadãos, e não de associações ou entidades coletivas. Mas apresentámo-la em nome de todos os aficionados portugueses representados nas suas Tertúlias e Clubes Taurinos.

T - Estavam a concurso mais de 600 projetos, este foi um dos eleitos, considera foi a prova de que quando um projeto tem credibilidade os aficionados unem-se em torno dele?

LC - Confesso que estou muito satisfeito por termos sido um dos dois únicos projetos nacionais a ser aprovados pela votação dos portugueses. Mas por outro lado esperava uma adesão muito maior.

T - Sempre esperou a vitória, tendo em conta que a Tauromaquia é um tema sensível da sociedade?

LC - Se todos aqueles que deveriam ser os mais interessados, aqueles que vivem da Festa, se tivessem mobilizado em torno deste importante objetivo de promover a Tauromaquia a Património Cultural de Portugal, a votação seria esmagadora. Há cerca de dois milhões de pessoas em Portugal que gostam de toiros. Já existiram abaixo-assinados pró-taurinos que não tiveram nenhuma consequência e recolheram dezenas de milhares de assinaturas. Como poderia eu esperar outra coisa se não a vitória?

T - Quais foram os apoios que tiveram durante o período de votação?

LC - O processo conheceu duas fases. Na primeira, em reuniões promovidas pelo Ministério da Modernização Administrativa por todo o país, foram apresentados os projetos. O nosso foi em Portalegre, concelho em que se situa a nossa sede social. Depois os projetos foram analisados e só 601passaram à fase da votação. A segunda fase correspondeu à divulgação dos projetos e à votação propriamente dita. Nesta fase tivemos o apoio das Tertúlias e Clubes Taurinos membros da TTP e da Direção da Prótoiro. Foram também importantes os apoios de uma ou outra empresa, de três Câmaras Municipais, de uma Junta de Freguesia e de um ganadero, que apelaram ao voto no projeto e o propagandearam. Depois há que considerar os muitos aficionados que, isoladamente, foram levando os seus amigos e familiares a votar.

T - Mas explique-nos em concreto qual é o objetivo deste projeto?

LC - Enquanto cultura a Tauromaquia é um fenómeno muito rico. Para além da espessura histórica, dado que dura há mais de 50 mil anos a relação especial entre homens e toiros, há um grande número de aspetos a considerar quando se pensa nesta cultura, desde o toiro à sua lide, das arenas às ruas, da língua que usamos todos os dias ao modo como a tauromaquia inspirou artistas de todas as outras artes. Identificar, catalogar, referenciar e organizar dossiers acerca de todo este universo, gerador de um manancial infinito de símbolos, artefactos, rituais, figuras proeminentes, episódios riquíssimos, etc., é uma tarefa que requer tempo e conhecimento. Por isso o que o projeto prevê é que o Ministério da Cultura contrate e pague a um grupo de profissionais que, sob a nossa supervisão, faça todo esse levantamento, onde for possível em colaboração com as Câmaras Municipais, e prepare esses dossiers de candidatura da Tauromaquia a Património Cultural Imaterial reconhecido e registado na Direção Geral do Património.

T - E porque não se olhou mais além e ter-se projetado uma candidatura a Património Mundial e não apenas nacional?

LC - Porque antes de se organizar uma candidatura mundial importa assegurar o registo nacional. Além disso, há muitas pessoas a trabalhar para promover a candidatura da tauromaquia a Património Cultural da UNESCO em todos os países taurinos. Uma candidatura da Tauromaquia à UNESCO deve ser uma candidatura mundial. Devemos mostrar-nos unidos e não divididos em nacionalismos mesquinhos. A tauromaquia une, não divide. Mas estamos a pensar mais além.

T - Quem são os vossos parceiros neste projecto?

LC - Durante todo o processo tudo fizemos para que o projeto pudesse ser de quem o pretendesse. Nunca adotámos a atitude do “dono das vacas” com o dedo no ar. Pelo contrário, convidámos toda a gente a assumir o projeto como seu. Por isso ele é já da Prótoiro, com quem contamos continuar a trabalhar em conjunto. Gostaríamos de ter todos os municípios com atividade taurina empenhados no projeto. Os municípios comprometeram-se a trabalhar no mesmo sentido que nós, cada qual no seu território. Agora é preciso que se trabalhe em conjunto. E, claro, queremos que se juntem mais aficionados, ganaderos, toureiros, empresários, especialistas da comunicação social, enfim, todos aqueles que prezam a democracia cultural e amam a Cultura Portuguesa. 

T - Qual o trabalho desenvolvido pela Associação das Tertúlias Tauromáquica?

LC - Temos vindo a cumprir um Programa de aproximação entre os aficionados de todo o país. Há muitas pessoas de Abiúl que não conheciam a Festa na Terceira; de Alcochete que não conheciam Portalegre; do Entroncamento que não conheciam Beringel; da Chamusca que nunca tinham ido a Alter do Chão; de Vila Franca que não conheciam as festas de Azambuja, ali tão perto. E vice-versa. Por isso nos esforçámos por fazer com que os aficionados portugueses tenham consciência da riqueza e diversidade que tem a nossa Festa (a excursão aos Açores foi um momento especial nesta linha, como o foi termos diversificado ao máximo os locais das nossas reuniões). Depois temos este projeto do Património Cultural. Estamos a organizar um Grande Congresso Internacional sobre Toiros e Cultura em parceria com duas Universidades. Quando são apresentados projetos anti-taurinos na Assembleia da República, vamos lá falar com os Deputados e alertá-los para o perigo que constitui a sua aprovação. Promovemos as tauromaquias populares e tentamos fazer ver aos taurinos da “Tauromaquia de Tricórnio e Montera” a importância que elas têm. Divulgamos e defendemos a Festa por todos os meios ao nosso alcance, assumindo a postura de simples aficionados, que são quem paga e apenas o faz por amor ao Toiro. Procuraremos ainda, através de ações concretas, valorizar a verdade nos toiros e no toureio e distinguir os melhores na arte de tourear.

T - Sendo um projeto vencedor, haverá 200 mil euros atribuídos. Em que serão aplicados?

LC - Como já disse, principalmente na contratação, por parte do Ministério da Cultura, de profissionais capazes de proceder ao levantamento e registo do Património da Cultura Tauromáquica.

T - Os 200 mil euros serão suficientes para se atingir o objetivo principal?

LC - Julgamos que os 4 ou 5 profissionais qualificados na área do Património que estarão a trabalhar a tempo inteiro, durante 2 anos, no projeto, se não forem suficientes para completar o trabalho, dar-lhe-ão um grande impulso. E o projeto poderá ser o catalisador para que os Municípios que ainda não iniciaram trabalhos nesta área o venham a fazer rapidamente, pelo que pode ter efeitos multiplicadores.

T - Quais as actividades que querem desenvolver?

LC - Pretendemos continuar a desenvolver e aprofundar as atividades referidas acima.

T - De que modo envolverá a sociedade neste projecto?

LC - Como disse numa entrevista a outro órgão de comunicação, este projeto não pode ser obra de meia dúzia de carolas. A chave do sucesso está em envolver toda a gente que possa ter informações para que as faça chegar até aos profissionais que as registarão. As pessoas não devem pensar que alguma coisa que possuam, e que julguem insignificante, não tem valor. Tudo nos interessa e quanto maior for a informação, melhor.

T - O que pode é deve mudar na Tauromaquia para ser mais valorizada?

LC - Tenho dito muitas vezes que a melhor defesa da Festa de Toiros é a luta pela verdade na Festa. Se a Festa não fugir aos seus valores, torna-se forte. E nesse caso fica mais protegida. Existirá Festa de Toiros no nosso país enquanto existirem centenas de milhares de pessoas que acorrem aos toiros. Mas para que isso aconteça há que aumentar, e muito, o nível de exigência e qualidade dos espetáculos. Penso que hoje há muita procura do aplauso sincero mas facilitista. Isso tem de mudar. O pundonor, a vergonha toureira, a seriedade, as condições de segurança nas Praças de Toiros, a emoção e o valor têm de continuar a ser marcas distintivas desta Cultura. É isso que melhor a defende.

T - Como analisam o actual momento a festa brava?

LC - Não tenho espaço nesta entrevista para dizer muito, mas sintetizaria nos seguintes pontos: 1) este ano tivemos um número de Praças a abarrotar como há muito não se via. Isso é muito bom. 2) Por outro lado, tivemos a tragédia com a morte de dois forcados, o que nos deixa consternados, mas com a prova que esta é uma Festa de verdade; 3) falando de forçados, uma realidade tão portuguesa, eles são uma importante cultura juvenil no nosso país que continua a crescer e a rejuvenescer as gerações de aficionados. 4) Os empresários tiveram sucesso com as boas casas, mas creio que lhes falta visão estratégica para o futuro da Festa. Só pensam no dia a dia. 5) O toureio a pé, espevitado pela vinda regular de figuras mundiais, reavivou-se, mas continuam sem ser dadas oportunidades aos bezerristas, novilheiros e matadores de toiros portugueses, quando julgo que eles têm feito por merecê-las. 6) Entre os cavaleiros, os mais veteranos continuam a mandar e sem grandes apertos. É preciso que apareçam novos valores com força, a praticar o toureio a cavalo que não imite o rejoneio espanhol. 7) Por fim, cada vez há mais crítica, devido à existência de meios de comunicação que o facilitam, mas nem sempre há boa crítica. Era importante que os críticos se habituassem a falar mais para fora, para quem não compreende, num ação pedagógica, do que para dentro do círculo fechado do “mundilho”.

T - Acha que há anti-taurinos dentro da festa, como por vezes se costuma comentar nos meandros da festa em tom de crítica?

LC - Acho que isso é uma figura de estilo. Nem toda a gente cumprirá a bom nível o seu papel. Por outro lado, erros todos cometem. Mas anti-taurinos? Acho que não. Os inimigos estão lá fora. O que os de dentro devem evitar é cometer erros que lhes possam dar a eles, involuntariamente, argumentos.

T - Como unir todos os aficionados?

LC - Essa é uma questão muito complexa. Os aficionados nunca foram unidos e a diversidade fez sempre parte desta Festa. Os que nos atacam é que usam o “pensamento único”, ninguém diz nada “fora da caixa”. A tauromaquia, pelo contrário, é feita de rivalidades e diversidade de opiniões. Uns gostam mais de uns toureiros do que outros, outros preferem esta ganadaria àquela, muitas vezes a nossa terra é a maior e nem vemos o que se passa na outra. Por isso estaremos sempre divididos. Mas atenção: sabemos respeitar a opinião alheia. Essa cultura democrática é intrínseca à Festa. E há coisas que nos unem a todos, como a alegria e o amor ao Toiro bravo. O que nos falta, portanto, é sabermos valorizar mais o que nos une, mantendo sempre o sentido crítico e mostrando que não somos um coletivo unanimista. Creio que quando a Festa é atacada, a unidade em trono do que nos une acaba por vir ao de cima.

T - Onde poderão as pessoas acompanhar o trabalho que está a ser desenvolvido neste projecto?

LC - Na página da ATTP e no nosso sítio do facebook.

T - Qual a função da Protoiro neste projecto?         

LC - Como disse, este projeto e a sua vitória também são da Prótoiro, sem cujo apoio não poderíamos chegar onde chegámos.

T - E em que medida cada associação, nomeadamente a Associação de Toureiros, Associação de Forcados, e Associação de Empresários, têm colaborado neste projeto?

LC - Têm colaborado na (curta) medida que lhes permite a perceção que têm de que a Tauromaquia é cultura e precisa de ser elevada a Património Cultural. Quanto mais entenderem isto, mais vão entrando a colaborar.

T - Para terminar perguntava-lhe, que papel poderá ter a imprensa taurina neste projeto?

Quero agradecer a todos os meios de comunicação especializados que nos apoiaram pelo que fizeram. A todos, sem exceção, apelo para que continuem a apoiar. A imprensa Taurina possui muito material, muito espólio e informação que virá a ser indispensável. E contamos sempre convosco para divulgar as iniciativas à medida que forem ocorrendo.

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