A ganadaria Murteira Grave foi uma das triunfadoras da temporada, na eleição levada a cabo perante os leitores e aficionados do Toureio.pt.

O Toureio.pt entrevistou Joaquim Murteira Grave sobre a temporada, a criação do touro bravo, a subsistência da ganadaria e ainda sobre a actual festa brava em Portugal.

O Toureio.pt apresenta parte da entrevista realizada ao ganadeiro.

Toureio (T) - Começo por lhe pedir que faça um balanço da temporada da ganadaria Murteira Grave.

Joaquim Grave (JG) - De uma forma geral, o balanço da ganadaria Murteira Grave foi positivo, quer em Portugal, quer em Espanha.

T- Os touros da sua ganadaria que saíram as arenas, concretizaram as suas expectativas?
JG- Alguns deles sim, mas não em grande quantidade. Ou seja, tendo uma noção aproximada do jogo que os toiros podem dar, alguns concretizaram as expectativas, mas cada ano ponho a fasquia mais alto e, nesse sentido, ainda falta muito...

T- Quais os melhores curros desta temporada?

JG- Por vezes tenho dificuldade em empregar o adjetivo melhor na abordagem ao comportamento dos toiros, são tantos matizes diferentes que se torna difícil a comparação, às vezes prefiro dizer diferentes. Estou-me a lembrar das corridas de Lisboa e de Abiul, por exemplo. Os 2 toiros mais bravos, quer o de Lisboa, quer o de Abiul, foram completamente diferentes um do outro. Essas duas corridas foram boas, houve toiros bravos em ambas. Mas a corrida de Ubeda em Espanha também foi muito boa e, naturalmente, torna-se difícil a comparação já que a lide a cavalo e a pé exigem performances completamente diferentes aos toiros. Mas não querendo fugir à pergunta, fico-me com a de Ubeda. Tirando os 2 primeiros toiros, foi estupenda.

 

Quem me compra os toiros são os empresários, mas quem os pede ou quem os aceita... são os toureiros.

 

T- Uma vez mais voltou a lidar em Espanha e a ser premiado, é um sinal que a Ganadaria Murteira Grave está a voltar a impor-se no outro lado da fronteira?

JG- Isso é tudo muito relativo. A ganadaria Murteira Grave é uma “marca” conhecida em Espanha, mas a verdade é que está arredada dos grandes palcos há já muitos anos. A reconquista do mercado é muito difícil e morosa, mas também tenho claro que uma corrida brava numa praça com visibilidade abre uns “atalhos” de esperança. O difícil é conseguir essa data nessa praça. Tenho bem presente que o público-alvo de uma ganadaria são duas dezenas de toureiros. Quem me compra os toiros são os empresários, mas quem os pede ou quem os aceita... são os toureiros. Até porque, hoje em dia, muitos empresários são os apoderados dos toureiros...
T- De que lado da fronteira gosta mais de ver os seus touros serem lidados?

JMG- Gosto de os ver lidar em Portugal e em Espanha, mas devo confessar que me enche mais vê-los lidar em Espanha. Não tenho palavras para exprimir o que sinto, quando vejo um toiro meu investir com ‘codícia’ e bravura com o morro pelo chão numa faena de muleta.

T- Considera que ainda há uma relutância em que sejam lidados touros portugueses nas arenas espanholas, ou esse é um preconceito que já se está a diluir?

JG- O público pagante não olha a nacionalidade dos toiros. A esmagadora maioria dos agentes e profissionais do toiro, também não. Mas isto não invalida que se “encalhe” de vez em quando com alguém que, não é que afirme perentoriamente que não quer, mas apenas nos suporta. É natural, não considero que seja um entrave. Se os toiros tiverem qualidade, não há nenhum problema.
T- Mas relativamente à entrada dos touros espanhóis em Portugal, ainda existe claramente essa relutância, até mesmo com grandes penalizações para os promotores que queiram ter nas suas praças touros espanhóis...

JMG - As penalizações não são para os promotores, mas sim para os ganadeiros espanhóis. A não ser que os empresários se disponibilizem a pagar o montante para obter os certificados portugueses dos toiros. Atenção, não se trata de penalizações, mas sim de tentar equilibrar as duas situações: trânsito de toiros de Portugal para Espanha e de Espanha para Portugal. Durante muitos anos, até há dois anos com a entrada do novo regulamento, havia uma disparidade; os ganadeiros portugueses para lidarem em Espanha tinham que cumprir uma série de formalidades, o que não acontecia no sentido inverso.

T- Mas ainda regressando à temporada da ganadaria Grave, foi este ano que mais se aproximou da perfeição?

JG - Não, não foi. A camada foi curta e, em comportamento, não superou a de 2015. Comigo não existe perfeição, nunca fico completamente saciado... Além de que a verdadeira arte é imperfeita!

T- Relativamente a Portugal, tivemos toureiros à altura dos touros Murteira Grave? Ou seja, tivemos toureiros que mostrassem da melhor forma o que ia dentro dos seus touros?

JG- Sim, claro. Os toureiros são, para mim, homens fantásticos. É um erro, uma asneira enorme, vulgarizar o valor e o desempenho dos toureiros. Eles são quem permite, quem me ajuda, a terminar o meu trabalho de selecção. Temos excelentes toureiros a cavalo no nosso país; já deram muitas voltas a Portugal, mas continuam excelentes...

T- Sente que esta temporada houve uma maior aposta no touro de qualidade, em Portugal?

JG- Sim, senti isso. E creio que essa realidade se vai acentuar este ano que vem. O problema é que a cabana brava portuguesa, que tem ganadarias muito boas, é pequena e quando se acabam os das ganadarias mais bravas, restam os outros menos criteriosos que acabam também por lidar tudo numa fase da temporada favorável à subida dos preços.

T- Quais foram os touros Grave que este ano não gostou nada de ver e porquê?

JG- Houve alguns toiros que não gostei de ver. Quando não há entrega e/ou agressividade (atenção não são a mesma coisa) não gosto. Começando pelos mais recentes, não gostei muito de um toiro em VFX em Outubro, os 3 em Alcácer (não os vi porque estava em Ubeda esse dia) parece-me que não foram bravos, também não gostei do toiro em Lisboa na corrida dos 125 anos do Campo Pequeno e do novilho lidado a pé pelo Cuqui também em Lisboa. Estes foram os toros que não gostei este ano.

T- Falando agora da próxima temporada, quais as suas expectativas para a temporada da ganadaria?
JG- As expectativas são boas, embora seja uma camada também curta como foi a de 2017. Aliás são as duas camadas mais curtas de sempre da ganadaria. Serão como em 2017, 4 corridas. Para 2019 já será uma camada maior. Como quase todos os anos acontece, lidar-se-ão toiros filhos de sementais novos; em 2018 serão 2 sementais que vão ser avaliados pela primeira vez, em termos de toiros ‘cuatreños’, porque as filhas nas tentas já foram observadas.

T- Certamente vai regressar às arenas espanholas...

JG- Esse é o meu desejo, embora ainda não esteja nada certo.

T- E para Portugal, já há alguma corrida certa?

JG- Em Portugal estão certas as corridas de Lisboa e Abiul.

 

O Toiro representa a natureza, embora seja hoje mais cultura que natureza

 

T- Se me permite, falemos agora um pouco do touro bravo, para que os nosso leitores fiquem um pouco mais esclarecidos, diga-nos o que é realmente um touro bravo?

JG- Bom, essa pergunta dava para um livro! O toiro bravo é um animal fascinante e único. Representa a natureza, embora seja hoje mais cultura que natureza. Não é um animal doméstico, nem um animal selvagem, o que é então? É um animal essencialmente bravo. O que é que isto quer dizer? Quer dizer que ele põe o valor intrínseco do combate que trava acima do seu próprio sofrimento. E é isso mesmo que o define como bravo. Conserva ainda alguma da sua agressividade natural, modelada por uma bravura criada pelo homem. Sim, a bravura foi o homem que a criou, é o trabalho que o homem fez com a agressividade natural do toiro. O toiro transforma a sua dor numa ofensiva constante, até à exaustão, até à morte. Não há nenhum outro animal que tenha um comportamento semelhante. Ele tem as qualidades que sempre se procuraram e enalteceram nos cavaleiros da Idade Média: coragem (bravura), nobreza e força .

 

Se o toureiro estiver com bagagem técnica e tiver valor, interessa-lhe mais um bravo

 

T- E é esse touro bravo que interessa aos toureiros?

JG- Aos toureiros interessa um toiro que seja mais previsível e sim, é verdade que o toiro contemporâneo é mais previsível e, portanto, mais dirigível pelo menos por parte dos toureiros. Pela minha parte, tenho dúvidas que esse seja o toiro que interessa mais ao espectáculo, leia-se público.  Também não comparto a ideia tópica que os toiros bravos não interessam aos toureiros. Se o toureiro estiver com bagagem técnica e tiver valor, interessa-lhe mais um bravo que um manso. Só que a bravura tem vários graus...

T- Na ganadaria Murteira Grave quais são as principais características, que tem de ter um touro para que no final do espectáculo, o ganadeiro e também o público saia satisfeito?

JG- Procuro um toiro que tenha “viveza”, mobilidade, que seja ágil, que vá a mais à medida que a lide avança, que consiga suplantar o desgaste energético (cansaço) que, naturalmente, o desenrolar da lide proporciona. Procuro um toiro que tenha “fijeza”, que humilhe e que coloque a cabeça na investida como desejo, que se empurre no centro da sorte. Procuro um toiro que tenha entrega no combate que trava. Para mim, a bravura tem mais a ver com entrega do que propriamente com temperamento. Todas estas características conformam um toiro com raça e nobreza e que transmite emoção às sortes que se lhe façam e às bancadas a um público que se emociona simultaneamente com a bravura do toiro e a coragem do toureiro. Sim, basicamente, o público vai às praças (ou deveria ir...) para admirar a bravura do toiro e a coragem do toureiro. Devo esclarecer que, ao contrário da maioria dos aficionados que associa nobreza a suavidade, para mim nobreza tem a ver com rectitude no ataque, com franqueza no galope, com ir pelo seu caminho, mas não com suavidade. Nobreza sim, toda a que couber; suavidade não!

T- Como é feita essa selecção?

JG- A selecção é feita nas fêmeas nos tentadeiros e nos sementais também nas tentas e/ou nas corridas (em Portugal). Não sou propriamente um ganadeiro clássico nesse aspecto. Selecciono mais investidas do que bravura formal. Apaixono-me por investidas vibrantes e encalçadas! Considero que um animal, macho ou fêmea, que tenha uma dessas investidas, pode transmiti-las à descendência. Para mim, a Festa dos toiros é mais uma festa de emoções do que de perfeições.  Funciona bastante um instinto, um pormenor. Seleccionar não é apenas emparelhar um toiro bravo com uma vaca brava e esperar que saia um bezerro bravo. Se fosse assim, ninguém tinha mansos...

T- Nos últimos anos tem-se falado muito que os ganadeiros estava a criar um touro ao jeito dos toureiros e pouco ao jeito do espectáculo, consideram que tem sido mesmo assim? Especificamente na ganadaria Murteira Grave, cria-se o touro bravo a pensar no gosto próprio do ganadeiro, no toureiro, no público ou no espectáculo num todo?
JG- Essa questão é recorrente e anima as tertúlias. Normalmente cai-se na dicotomia de o toiro colaborador, obediente, fácil, por um lado, e por outro, no toiro difícil com mais génio que raça, de investidas incertas e que, raramente, proporciona o êxito ao toureiro. Gastam-se horas nesta discussão. Procuro um terceiro tipo de toiro, aquele que quando sai põe a todos de acordo, toureiro, ganadeiro e público. Um toiro com raça, com entrega, com duração, que vai a mais. Para responder literalmente à pergunta, procuro um toiro a pensar no espectáculo num todo que, para mim, também é pensar no toureiro, no público e em mim também enquanto ganadeiro. Não posso criar um toiro que não sinta; procuro de uma forma apaixonada a bravura que me emociona.

T- Como analisa o estado do campo bravo em Portugal?

JG- Em Portugal existem boas ganadarias, algumas mesmo muito boas. Como compreenderá não vou especificar quando se trata de colegas. Só lhe digo que, face ao negócio ruinoso que é, é muito difícil manter a chama para continuar a investir e melhorar as ganadarias, quer do ponto de vista funcional, quer do ponto de vista genético.

T- Raramente se fala, mas como é conseguida a manutenção e subsistência de uma ganadaria?

JG- Se falarmos em Portugal, isto é, se uma ganadaria lidar os seus toiros somente em Portugal não há subsistência possível. Dependendo, naturalmente, da qualidade da exploração onde pasta a ganadaria, o ganadeiro tem que deitar mão de outras produções para colmatar o défice das contas ganadeiras. Ou de outras vertentes como por exemplo, O Turismo Taurino.
T- Transformou também a Galeana no espaço turístico, esta outra faceta tem estado a resultar?
JG- Sim, o Turismo Taurino é uma aposta já longa na Galeana. Tem vindo a aumentar ultimamente, cifrando-se nos 2 últimos anos em mais de 1500 visitas por ano.

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