Praticamente a terminar o ano, Nuno Pardal, da Associação Nacional de Toureiros, concedeu uma entrevista ao Toureio.pt em que faz o balanço da sua associação, dos seus associados e também da tauromaquia portuguesa no geral, durante a temporada 2017. Uma entrevista onde ficamos a saber como trabalha a referida Associação, como defende os seus associados, bem como é o funcionamento do Fundo de Assistência.

 

Toureio (T) - Começo esta nossa conversa, por lhe perguntar que balanço faz desta temporada relativamente ao sector que ANDT representa? 

Nuno Pardal (NP) - O ano de 2017 foi muito semelhante à temporada anterior, com a relevância de este ano ter havido uma maior atenção ao toureio a pé, com a realização de mais de 22 corridas mistas. Os 20 cabeças de cartaz que mais tourearam, realizaram uma média de 16 espectáculos na temporada, sendo que o líder dos cavaleiros foi Luís Rouxinol com 39 espectáculos e no toureio a pé Manuel dias Gomes com 11. No que toca a bandarilheiros, os 20 primeiros fizeram uma média de 36 espectáculos na temporada, sendo liderados pelo André Rocha com 54 espectáculos. Uma vez que também representamos a classe dos emboladores gostaria de dar a conhecer os números destes profissionais. Os 16 que integram a nossa associação fizeram uma média de 12 espectáculos sendo que, quem mais se destacou foi o Bruno Lopes com 49. Em 2017 actuaram nas nossas Praças de toiros, 62 cabeças de cartaz e 79 bandarilheiros. Nas contas finais achamos que esta temporada foi positiva, houve um maior dinamismo.

 

Sou sim da opinião que deve haver um maior cuidado na gestão de carreiras e na montagem dos espetáculos

 

T- Registou-se um ligeiro decréscimo de espetáculos, considera que um menor número é benéfico para os toureiros? 

NP- Conscientemente não defendo que a diminuição do número de espectáculos seja benéfico para qualquer profissional. Sou sim da opinião que deve haver um maior cuidado na gestão de carreiras e na montagem dos espetáculos.

T- Revendo a temporada 2017, qual é o momento que elege como o mais positivo para a classe que a associação representa? 

NP- Destaco essencialmente 3 aspectos: A subida de categoria de 11 toureiros, alguns jovens com potencial e o regresso da TVI às transmissões televisivas. Ainda neste campo também há que destacar o elevado número de telespectadores que ao longo do ano assistiram aos espectáculos transmitidos na TV.

T- Este ano, numa entrevista ao DN, a Administradora do Campo Pequeno afirmou que “para ter mais audiências é necessário ir contratar ao estrangeiro”. Como reage a esta afirmação? 

NP- Não comento opiniões de empresários.

 

Parte dos toureiros da nova geração ainda não conseguiu fidelizar o seu público

 

T- Mas não considera que nos últimos anos há falta de um verdadeiro ídolo que arraste multidões? 

NP- Diria que parte dos toureiros da nova geração ainda não conseguiu fidelizar o seu público. Faz falta uma rivalidade que existia na geração mais velha. Essa rivalidade não só era criada pela qualidade do toureio de cada um, mas também era muito bem lançada e promovida pelos empresários.

T- Qual é a causa que leva a esse défice de ídolo? 

NP- Se eu citasse uma dúzia de nomes, garantidamente serão ídolos de muita gente. Mas provavelmente não o suficiente para mover as tais multidões. O que está a acontecer neste momento é talvez a necessidade de alguma actualização e inovação, aliada à dedicação e exigência. Não é de todo uma actividade fácil. Todos merecem o nosso respeito. Teremos em cada tarde de nos superar e sermos melhores para chegar ao sucesso. Alias como em tudo na vida.

T- Regressando ao balanço da temporada, quais as iniciativas e objectivos atingidos que destacam da vossa acção? 

NP- Os nossos objectivos são sempre o bem-estar, a realização pessoal e profissional dos nossos associados. Num Mundo perfeito gostaríamos que todos tivessem as mesmas oportunidades para mostrar o seu valor e claro está, com as melhores condições contratuais possíveis. Que todos juntos lutemos para engrandecer a tauromaquia nacional e a nossa profissão, independentemente dos diferentes pontos de vista, naturais em qualquer actividade.

T- Como considera a ANDT: um agente activo na festa, um agente neutro ou um agente passivo? Porquê? 

NP- Como sabe a ANDT é parte integrante da Federação Portuguesa de Tauromaquia - Prótoiro, conjuntamente com as outras Associações do sector. Desde a sua criação em 2010 muitas das respostas assim como as acções executadas pela ADNT são feitas dentro da  actuação da Protoiro, onde trabalhamos em conjunto com as restantes associações do setor. Não quer com isto dizer que as Associações são passivas ou neutras. Somo sim activos em conjunto e a uma só voz. Logicamente, em casos de defesa dos seus associados, a ANDT sempre terá o papel principal.

T- É complicado lidar com diferentes personalidades dentro de uma associação? Ou seja, é difícil congregar todos em torno de uma categoria de Toureiro? 

NP- Como em qualquer Associação existem diferentes personalidades e como disse atrás, diferentes pontos de vista. Saudável desde que não se ultrapassem os limites. Afinal todos temos o mesmo objectivo. A ANDT tem uma particularidade que é a de integrar várias categorias de Toureiros, de emboladores e moços de espada. Dentro das categorias de Toureiros, temos os cabeças de cartaz e bandarilheiros. Por ventura seremos a única Associação que defende e medeia a relação entre empregadores e empregados. Respondendo directamente à sua pergunta, sim é complicado mas a Historia diz-nos que este modelo funciona e havendo união e bom senso tudo acontece.

T- Como vê as declarações de alguns toureiros, que dizem que têm de basear as suas temporadas em Espanha, porque não são considerados em Portugal, como é que a ANDT defende estes seus associados? 

NP- Desconheço a quem se refere e porque alegam que não são considerados. Os únicos artistas tauromáquicos que infelizmente em Portugal não podem desempenhar as suas funções na plenitude, são os matadores de toiros, novilheiros e ainda os picadores. Mas estes casos têm a ver com a legislação do País.

T- Praticamente em cada temporada que passa há sempre vozes que se levantam ameaçando que pode surgir uma nova associação de toureiros, e normalmente estas vozes vêm por parte dos bandarilheiros, como vê estas vozes críticas? 

NP- Sou uma pessoa de consensos e diálogo. Como presidente tenho exactamente a mesma visão. Sei que não podemos agradar a todos. Tenho a certeza que essas vozes de que fala, se existirem de facto, são uma minoria. Os Toureiros sabem que têm uma direcção que os defende, mas também sabem que cada um tem que fazer a sua parte, com seriedade, respeito e pragmatismo. Ao fim ao cabo, todos são necessários. Uns não existem sem os outros. Não vejo em que seria positivo haver essa divisão, ate porque a haver divergências, as mesmas se manteriam.

T- Sabemos que há uma diretriz interna que indica aos associados que não devem aceitar corridas em que atuem associados devedores, poderá estar aqui o motivo das vozes críticas? 

NP- Não existem sócios devedores em actividade.

 

A ANDT não tem como função controlar se os artistas recebem ou não os cachets combinados

 

T- Todos os anos também existem toureiros que em tom de sussurro dizem que há empresários a cortar nos cachets, fugindo ao acordado, como consegue a ANDT controlar esta situação, especialmente quando pode haver toureiros a declarar que recebem X quando realmente recebem Y, acontece isto? 

NP- A ANDT não tem como função controlar se os artistas recebem ou não os cachets combinados. Caso algum associado se sinta defraudado com o acordado com alguma empresa ou cabeça de cartaz e queira ser defendido, somente terá que pedir apoio jurídico à ANDT. A ANDT tem mecanismos que permitem, com rapidez, solucionar estes problemas, onde após apuramento dos factos, o lesado será indemnizado de acordo com o contrato celebrado.

 

As funções que [a ANDT] desenvolve, normalmente, não têm nenhum assunto relevante de interesse público

 

T- Relativamente à ANDT, considera que esta associação está um pouco fechada aos aficionados em geral? Ou seja, trabalha muito só para os seus associados... 

NP- O objectivo da actividade da ANDT é primariamente os seus associados. As funções que desenvolve, normalmente, não têm nenhum assunto relevante de interesse público. Assuntos de interesse público são canalizados para o nosso trabalho na Prótoiro.

T- Muitos aficionados não sabem, mas a ANDT congrega dentro de si um fundo de assistência, como funciona? 

NP- Embora criado dentro da Associação em 1952 pelo Maestro Diamantino Viseu, o Fundo de Assistência é hoje uma entidade completamente autónoma, do qual tenho a enorme honra de também presidir e que possui uma obra notável construída por diversas gerações de profissionais. As suas principais funções são: 

- Apoio à educação dos profissionais tauromáquicos e seus filhos;  

- Prestação de assistência médico-cirúrgica nos casos de acidente ocorrido no exercício da profissão, sejam eles em praça ou em treino 

 - Prestação de assistência nos casos de insuficiência económica familiar e períodos de inactividade que resultem de acidente ocorrido no exercício da profissão;  

- Outros apoios que contribuam para a dignificação do profissional e do respectivo agregado familiar.  

É ainda preocupação do Fundo apoiar os toureiros já retirados assim como as viúvas de toureiros já desaparecidos. O Fundo de Assistência é hoje reconhecido oficialmente como entidade seguradora para todos os artistas tauromáquicos profissionais.

 

Como é sabido vivemos num País democrático, onde alguns que tanto apregoam a liberdade, não demoram a tentar limitar os direitos e liberdade dos outros cidadãos

 

T- A ANDT integra a ProToiro, como tem visto o trabalho desta Federação? 

NP- Como é sabido vivemos num País democrático, onde alguns que tanto apregoam a liberdade, não demoram a tentar limitar os direitos e liberdade dos outros cidadãos, numa atitude autoritária, preconceituosa e antidemocrática.   As Associações reunidas na Federação Protoiro têm vindo a fazer um longo e excelente trabalho, por vezes na sombra da opinião pública, mas assim tem de ser necessariamente. Não tenho dúvidas em afirmar que esta união das Associações foi a melhor forma de garantir a defesa da Tauromaquia, aliás um modelo que é admirado em todos os países taurinos, sendo a Protoiro continuamente dado com case study de organização do setor taurino e da defesa e promoção da tauromaquia.  Desde 2010 o caminho foi longo, muito trabalhoso estando a ProToiro focada na relação da Festa com as instituições políticas, sociais e mediáticas, sendo os Embaixadores da Festa na sociedade. Os objectivos que nos propusemos desde a criação da ProToiro estão praticamente realizados e neste momento, para 2018, vamos entrar numa nova fase, aprofundando o trabalho com os agentes da Festa, para potenciar o produto taurino interna a externamente. Estamos sempre abertos ao diálogo e debate interno pois é um motor de melhoria contínua. O caminho faz-se caminhando e estamos certos que Todos os que caminhamos a favor da Tauromaquia o devemos fazer juntos. Em 2018 chegarão várias novidades muito importantes.

T- Há ou não uma necessidade de regenerar a festa dos touros em Portugal? 

NP- Diria que sim. Sem querer ser polémico, a minha opinião pessoal é de que deveríamos repensar o espectáculo, não a sua essência mas a forma de apresentar, mais cénico, mais dinâmico e talvez mais curto. Buscar boas práticas cada vez mais modernas e profissionais, pois hoje a tauromaquia compete no mercado do lazer e cultura com muitas outras ofertas e tem de manter a sua atractividade e relevância social nas escolhas dos portugueses.

T- O que está a ANDT a preparar para 2018? 

NP- A ANDT continuará a “arrumar a casa” e a consolidar a sua actuação, em união com os seus associados e unida com as outras Associações na Prótoiro. Tudo faremos para que 2018 seja um ano de triunfos e de sucessos para os nossos associados.

T - Que mensagem quer deixar aos leitores do Toureio.pt? 

NP- Primeiro que tudo agradecer ao Toureio.pt o ótimo trabalho que tem desenvolvido na promoção e divulgação da tauromaquia. Fazemos votos que todos os aficionados continuem a apoiar declaradamente a nossa Festa, quer indo aos espectáculos quer divulgando a sua aficion nas redes sociais e no meio onde se inserem. Vivam a vossa paixão, mostrem o orgulho de serem aficionados. 

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