17 anos, um copo e paciência esgotada…

Hugo calado

Tinha eu 17 anos, quando há 17 anos se iniciou oficialmente o Toureio.pt. Primeiramente Toureio.no.sapo.pt, depois Toureio.com e nos últimos anos Toureio.pt.

A história do site não irei repeti-la outra vez, pois, a maioria conhece-la, hoje este artigo especial aniversário é para analisar o panorama taurino nacional, olhando para o passado, o presente e o futuro.

Ao longo destes 17 anos de Toureio.pt, tive oportunidade de ver e viver momentos bons e menos agradáveis de uma festa que tem vindo a mudar ao longos dos anos.

A Tauromaquia sempre foi um espetáculo de broncas, de triunfos, de convívio e até de momentos neutros, no entanto, sempre me lembro de a Imprensa ser olhada de lado.

Ao longo destes anos sempre me debati pela liberdade de imprensa, algo que nem sempre é compreendido na Tauromaquia, pois os intervenientes sempre lidaram mal com a verdade. Poderia aqui contar inúmeros exemplos de tentativas de limitação da liberdade de imprensa, mas isso daria um livro, pois ao longo de 17 anos, foram várias as acreditações negadas, várias foram as ameaças recebidas via telefone, mail ou até mesmo redes sociais. A título de exemplo digo-vos que a temporada de 2020 iniciou em Mourão iniciou com uma grande polémica (lembram-se?), em que apenas transmitimos declarações que nos foram prestadas e passámos quase 24 horas a receber mensagens…, mas este é um dos exemplos.

Para além da tentativa da limitação da liberdade de imprensa, na Tauromaquia, o Toureio.pt lidou com uma grande falta de conhecimento, para não dizer ignorância, de alguns intervenientes da Tauromaquia. Toureiros, forcados e empresários enchem a boca para dizer que querem uma imprensa imparcial, mas depois os atos que praticam são em tudo contrários ao que dizem. Por exemplo, recentemente, o empresário José Gonçalves, em comentários que escreveu nas redes sociais e que depois apagou, lamentava que a imprensa não o ajudava nem apoiava os seus espetáculos, ora não é necessário ser especialista para concluir que, ao ajudar e apoiar algo, a imprensa está a ser parcial e é isso que não querem, pelo que pergunto, afinal em que ficamos?

Também ao longo destes anos debatemo-nos com uma desconsideração quase total do papel da imprensa, mas aqui, também o setor da imprensa não se soube defender e para isso tinha de se organizar, o que não aconteceu. A maioria dos repórteres que trabalha na Tauromaquia está mais virado para a fotografia e consequente venda de fotografias, ou seja, convém estar bem com Deus e com o Diabo, para poder vender, para poder entrar nas praças e até mesmo arranjar uns bilhetes para a família e amigos, ora, assim não podem defender a real liberdade de imprensa, porque ao defende-la põem em causa aquilo que referi e por isso, por mais que lhes custe há que se dividir as coisas, atualmente na Tauromaquia há fotógrafos (e bem e com legitimidade) e há (pouca) imprensa.

Ainda no seguimento da desconsideração quase total do papel da imprensa na Tauromaquia, aparece o papel das redes sociais, estas que sem sombras de dúvidas têm um grande papel na divulgação a Tauromaquia, mas não podem substituir-se aos Órgãos de Comunicação e é isso que nos últimos tempos tem vindo a acontecer e porquê? Por parolice dos agentes taurinos, pois as redes sociais dão likes e isso alimenta o ego. Como disse, as redes sociais são muito boas para a divulgação e todos os empresários, toureiros e grupos de forcados devem utilizar as redes sociais para divulgarem a sua atividade, não podem é deliberadamente ignorar os Órgãos de Comunicação Social, deixar de lhes enviar informação.

As redes sociais vieram também mostrar o pouco profissionalismo e incompetência existente na Tauromaquia com supostos gabinetes de comunicação que, ao não puderem dar a cara, não fazem o seu trabalho da melhor forma. Mas estas alegadas equipas de comunicação, apenas gerem redes sociais, ignoram os Órgãos de Comunicação e apenas os conhecem para ir furtar fotografias e utilizá-las sem qualquer identificação ou pedido de utilização, porque se o fizessem tinham essa permissão, mas lá está a falta de competência, esta que falta também quando não têm outra alternativa e têm de enviar comunicação à imprensa, mas esquecem-se dos Órgãos de Comunicação Social generalistas e até mesmo de alguns taurinos, mas compreende-se é a falta de conhecimento de como as coisas se fazem…

Bem, mas o que escrevi anteriormente são apenas gotas num oceano que atravessei ao longo de 17 anos com o Toureio.pt, mas nada disto me desmotivou, sempre meti para trás das costas e segui o caminho, até porque é uma área onde gosto de exercer a minha profissão, no entanto, achei que este era o momento para levantar um pouco do véu, mas garanto-vos que há muito mais para contar, dizer, revelar…

Ao longo dos 17 anos, como já referi e relatei, ultrapassei muitos desafios e cenas como as que já recordei, no entanto, não posso compactuar com falta de dignidade e foi isso que aconteceu em 2020, em que a imprensa foi tratada com falta de dignidade na maioria dos espetáculos.

Compreende-se que a pandemia alterou tudo e a adaptação foi difícil, no entanto, a imprensa no sector tauromáquico, nomeadamente os fotógrafos, foi tratada sem dignidade. Na maioria dos espetáculos, os fotógrafos, que normalmente tinham lugar na trincheira foram empurrados para as portas da bancada, correndo o risco de poderem ser infetados e posteriormente infetar as pessoas próximas. Alguns gostaram e até bateram palmas (para não ir contra quem lhes davam entrada), mas outros, como o Toureio.pt, exigiram dignidade, ou seja, que fosse garantido pelo menos um lugar na bancada, mas nem sempre esse pedido foi bem acolhido, ao ponto do empresário Luís Miguel Pombeiro me ter respondido “se tens medo da Covid fica em casa” e após dizer isto, o repórter foi colocado atrás de um gradeamento onde era impossível captar imagens… ah! E o Toureio.pt foi ainda proibido de realizar reportagem vídeo, certamente por ser editada e por ser publicada com qualidade, ao contrário dos vídeos que a empresa publica nas redes sociais, que até metiam medo.

Foi esta falta de dignidade a que estávamos sujeitos, a juntar à falta de qualidade que os espetáculos têm atualmente e a todas as gotas que foram entrando num copo que agora entornou. Confesso que fiquei sem paciência para tanta falta de profissionalismo.

Refleti e ponderei mesmo em encerrar por completo o Toureio.pt, mas pensei que não era justo comigo próprio e com os colaboradores que até aqui trabalharam comigo, encerrar assim este projeto, por isso apenas suspendi a atividade, na esperança que ocorra uma limpeza que é necessária, sob pena da Tauromaquia caminhar para o fim, pois tal como eu, sei de grandes aficionados que se estão a afastar.

Referi que suspendi a atividade, porque de facto não encerrei o Toureio.pt, é uma suspensão, porque vou andar por aí, vou estar atento e ainda tenho muito para contar e revelar, coisas que até podiam dar um livro…

Hoje, neste artigo especial aniversário poderia ter falado de tanta coisa que está mal na festa que sonha ser património, mas decidi falar mais sobre a comunicação, porque é por uma boa comunicação que a qualidade de um espetáculo começa…

Até uma próxima e organizem-se!

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