A morte de mão beijada

Será que as pessoas não se ralam muito se isto acabar?

Mas ninguém se preocupa com o futuro da tauromaquia?

Não quero acreditar que, apesar da grave colhida que acabamos de sofrer, nos falta aquela massa de que são feitos os toureiros, e não renascemos depois de cada cornada!

Os animalistas já me caíram em cima por ter falado no “Canto do Cisne da Tauromaquia”, diziam até que eu já previa o fim desta arte, puro equívoco, o deles, o que eu alertei foi para o que se adivinhava e o que está para vir agora, o desastre total da tauromaquia por culpa exclusivamente nossa, dos intervenientes activos, que não do público que paga o seu bilhete e não é considerado no seu esforço.

No meu artigo anterior falava em termos comparativos do exemplo do Ministro da Cultura de Espanha ao assumir que a Tauromaquia teria que ser considerada nas medidas de apoio implementadas pelo seu governo. Ao contrário da sua homóloga portuguesa que tem até o falso pudor de se referir a nós, e que parece sentir uma aversão doentia e não responde quando até na própria Assembleia da República a confrontam com temas relacionados com o mundo taurino. Puro engano, a partir dessa afirmação do referido ministro e talvez muito por pressão do Vice-Presidente Pablo Iglesias do Podemos, tudo mudou e a tauromaquia voltou a ser um não assunto, e a ser ostensivamente posta de lado.

Não só em Espanha, mas também em França e demais países com tradição taurina, essas organizações talvez por estarem melhor estruturadas e terem líderes á altura, fazem frente aos ataques governamentais directos, ou por omissão na inclusão dos apoios.

Não são bons os ventos que sopram no mundo taurino, não vemos medidas de apoio que permitam a sua subsistência, vemos sinais de desagregação e desunião nas organizações. Não devia ser a sua própria essência e o seu bastião de defesa, nesta grave conjuntura que nos afecta e põe em causa o próprio amanhã da Festa?

Temos assistido com “uma paciência de Job” ao desprezo com que o Governo nos brinda, na não inclusão das medidas de apoio anunciadas para a cultura. Vemos o Presidente da República receber-nos na clandestinidade, e a despachar-nos pela porta do cavalo (sem menosprezo para o nobre animal), sem constar da agenda oficial, como se nos considerasse um vírus maligno e não se quisesse contagiar, reeleição a quanto obrigas!

Vemos situações da mais flagrante injustiça: para nós não há dinheiro nem apoios, entretanto nova injecção de capitais públicos (850 ME) é aplicada no sorvedouro que se tornou o Novo Banco, milhares de milhões de dinheiros nossos, de todos nós, são esbanjados por quem nos governa sem qualquer vergonha, enquanto nós seguimos confinados e sem apoios.

A Prótoiro apresentou 21 medidas que considerou essenciais para o relançamento da tauromaquia, e a realização de corridas de toiros já em Junho, não serão as ideais, mas na conjuntura actual que vivemos, elas podem ser a rampa de lançamento da economia e da coesão social do mundo do toiro.

Falemos de moralidade. Mas que moral tem quem ordena que não se podem efectuar corridas de toiros, escudando-se com o Covid para proibir, se nem sequer se dignou falar connosco? Ostracizou-nos como se fossemos a peste, e agora entramos no saco das medidas proibitivas. Daqui até ao pensamento único, até á imposição dos seus padrões normalizados vai uma distância muito curta. Disfarçados com vestes democráticas, e com a desculpa da crise pandémica, querem acabar com este mundo taurino que nos apaixona. E nós deixamos?

Por analogia, deixem-me recordar o que se passava em 1918, aquando da pandemia do vírus influenza, mais conhecida por “Gripe espanhola”. Dizia o jornal espanhol Mundo Gráfico: “se cerrarón colegios y se mantuvierón teatros, fiestas, procesiones y corridas de toros”, e ilustra recordando Barcelona: “y también la plaza de toros de la capital catalana, atestada de espectadores aplaudiendo la faena del diestro Antonio Calvache”.

Como medida de protecção, a máscara nos rostos dos aficionados. Foi imprudência? Ou uma acção tendente a manter viva a chama da aficçión? Ou porque não, uma medida de carácter económico e social para manter a esperança, e garantir a subsistência de muita gente que vivia da Festa.

A tauromaquia tal como a conhecíamos, não tem retorno após a pandemia, sabemos que muitos no nosso meio já estão passando mal, carências de todo o tipo já nos afectam, e os apoios são inexistentes. Ganadarias, empresários, toureiros de todos os escalões, o pessoal que mantém a Festa funcionando, todos correm o risco de colapsar se não houver uma reacção firme e pensada estrategicamente. Esse é o dever de quem nos representa, apresentar uma proposta viável para o futuro que queremos, porque acreditamos que é possível!

Há alturas em que a diplomacia não resolve as situações, em que é preferível dar um murro na mesa e reagir com firmeza, se não queremos a morte de mão beijada!