“Afinal a censura existe”

Permito-me citar uma frase do escritor e membro da Real Academia Espanhola da Língua, Miguel Delibes pela sua actualidade, dizia ele na sua obra “Los motivos del Cazador”: “Quanto maior é a violência instalada na vida moderna, maior empenho põem alguns em depurar de agressividade, aspectos puramente lúdicos da actividade humana, como podem ser os brinquedos infantis, a caça, ou as corridas de touros. Este paradoxo leva-me a evocar a atitude daquele carcereiro do campo de concentração de Dachau que chorava, inconsolável no dia em que lhe morreu o canário.”

Vêm isto a propósito da ausência da grande maioria dos órgãos de comunicação social, naquela que foi a primeira grande concentração do Mundo Rural, que contou com milhares de participantes, e que teve lugar a 22 de Novembro passado, no emblemático Terreiro do Paço, o mesmo espaço que já presenciou corridas de toiros. Foi uma grande manifestação da vitalidade do interior do nosso País, dos seus habitantes e das suas tradições. Vi gentes dos mais recônditos lugares de Portugal, convivi com diversas associações representativas da vida económica, social, lúdica e das tradições que teimam em defender um legado único, diferenciador cultural face á globalização que nos ameaça, e vi também uma organização surpreendente (tendo em conta que a convocatória foi apenas através das redes sociais), superiormente dirigida por gente conhecedora e empenhada. Só assim o êxito foi possível. Valeu a pena!

Mas, onde estavam todos aqueles que tanto apregoam esse meio rural (e alguns até lá têm o seu “monte”!), e diziam gostar de touros? Onde param os artistas, os jornalistas, os intelectuais e os políticos (salvo honrosas excepções), que apareciam nas nossas praças de touros a assistir aos espectáculos tauromáquicos como forma de se autopromoverem? Depois de chegados ao cargo almejado, adoptam o politicamente correcto, e já não vão com medo que o grupo de pressão animalista lhes entrave as carreiras, ou simplesmente os ponha de lado!

Então e os políticos de proximidade, como os Presidentes de Câmara da ruralidade (a parte mais extensa do nosso território) que não marcaram presença, e que só tem a perder com o desaparecimento dos costumes e das tradições taurinas?

Adeus verticalidade, hoje é preciso estar sintonizado com o que parece bem, os valores que se lixem, é preciso é parecer!

A censura mais refinada invadiu as redes sociais segundo me dizem, principalmente no Facebook e no Instagram. Quantas vezes quando aparece algo taurino como fotos, vídeos, ou publicações com temáticas taurinas, surge fechada a imagem e sobre a mesma aparece o famigerado aviso: “Conteúdo sensível. Esta foto/vídeo tem conteúdos sensíveis que algumas pessoas podem considerar ofensivo ou perturbador”!

Isto numa altura em que as televisões, alguma imprensa e as próprias redes sociais veiculam a mais pura e crua violência, difundindo imagens do terrorismo, da agressão sexual, da intolerância entre os povos, de certa forma condescendendo com a barbárie, parece-nos uma profunda aberração que nos queiram impor a “Lei da Rolha”, quando eles fazem exactamente o oposto. A hipocrisia alastra ao ponto de silenciarem aquilo que é expressivo, como o foi a já referida concentração, e pouco tempo depois “choveram batalhões” de fotógrafos, jornalistas e televisões para cobrirem a chegada de uma “miúda zangada”, que veio do Norte da Europa (da terra dos Lapões, um povo quase em extinção), perfeitamente instrumentalizada por organizações pseudo-ambientalistas, e que veio para receber o preito e a vassalagem do autarca de Lisboa, e de alguns parlamentares prontos a receber lições e que se puseram a jeito!

Assim vai o nosso Portugal!

Dizem as estatísticas que a temporada taurina que findou, foi um êxito, com o aumento do número de espectadores e dos espectáculos. Pode ser um bom prenúncio para o Futuro, mas factos há e houve, como o da petição lançada pela Prótoiro, ”Contra a alteração da idade para assistir a Touradas”, que nesta altura andará por pouco mais de 4.000 assinaturas, manifestamente poucas e demonstrativas de alguma falta de empenho por parte de alguns, e de aderência por parte de outros. Outro facto negativo que importa relembrar para tirarmos os ensinamentos que se nos impõem a nós aficionados taurinos, é a não reabertura da praça da Póvoa de Varzim, e a nossa falta de força e de união para inverter esta situação. Se não estivermos alerta e mobilizados na nova época que se aproxima, se não tivermos uma direcção empenhada e consequente e com uma estratégia definida, poderemos ter surpresas desagradáveis, pois a censura existente e a indústria animalista tudo vão fazer para nos destruir.

Quero acreditar que tal não vai suceder, que o próximo ano nos trará melhores corridas de touros, que novos valores surgirão, e que uma nova consciência daquilo que somos, do que queremos, e da nossa força será o apanágio de todos os aficionados.

Boas Festas, com arte e cultura taurinas!

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