Alcochete: Venceram os Castro e Silva, mas houve mais numa noite agradável…

Nesta primeira corrida no pós-confinamento, em Alcochete, era necessário cumprir alguma regras de segurança que em regra (e não há regra sem excepção) foram cumpridas. Com o hábito talvez as excepções diminuam.

Tratava-se do XXXVIII concurso de ganadarias que levava o nome de António Manuel Cardoso “Néne”, em homenagem ao homem de toiros, empresário desta praça e forcado do grupo de Forcados Amadores de Alcochete que pegavam em solitário.

Os toiros eram na sua maioria de encaste Parladé para além de outras combinações de encastes como Soler, Pinto Barreiros e Cabral Ascensão. De referir que não apareceu nenhum Murube.

Abriu praça um Veiga Teixeira, com seiscentos e trinta quilos, para João Telles. O toiro era bem arrobado e bonito de cabeça. Vinha com ganas levou o primeiro a abrir e na preparação para o segundo levou um toque contra a trincheira.O toiro lesionou-se na mão esquerda mas não parou de investir e nos curtos, com sortes cambiadas vai deixando ferros que chegam forte às bancadas, contudo o toiro poucos passos tinha de investida mas foi o suficiente para compor a lide.

Para pegar este toiro salta Diogo Timóteo que contando com um toiro franco na investida e um grupo solidário fez do difícil fácil e ficou à primeira.

Agradecimento nos médios como manda a pandemia!

O de Brito Paes calhou em sorte a Francisco Palha. Feio de cara mas com saída alegre saudada com palmas pelo público. Dois bons compridos em seu sítio e o primeiro curto fica como mandam as regras alegrando a sorte, enquanto que no segundo se deixa colher e o ferro fica nas costas do toiro, muda novamente de cavalo e crava dois quarteios bonitos e dois de poder a poder onde tudo se põe em jogo e o Francisco aí ganhou!

Para a pega, desta vez, tivemos um elemento da família Pinto, o Manuel.

Que pena não se poderem, agora, dar voltas à arena! Esta é daquelas pegas que parecem simples, tal a técnica do forcado e do grupo. O toiro muda de trajectória e o forcado conjuntamente com o grupo reajusta-se e quando o que parecia ser uma pega complicada tornou-se “simples”.

Seriam voltas mais que merecidas a ambos os artistas.

O toiro da ganadaria António Silva que calhou a António Prates vinha bem arrobado, com 640 quilos sem ser gordo. Dizia-se ao meu lado que era muito homogéneo e era mesmo um bonito exemplar. Haveria de ganhar o prémio de apresentação.

António Prates, muito bem montado, aguenta uma investida forte, quarteia-se e deixa o ferro no morrilho. Estes ferros dão força para os seguintes. No segundo, e estes toiros têm muito sentido, é apanhado a meio da reunião mas deixa o ferro. Nos curtos crava a quarteio, como que descobrindo o caminho das pedras, ferros bonitos com muito coração e com beleza estética. O último fica particularmente na retina.

O cabo dos Amadores de Alcochete decidiu ser ele a pegar este toiro. Era uma pega para três voltas e saída pela porta grande. É difícil descrever uma obra de arte que se sente mais com o coração do que com os olhos. Grande Nuno Santana! Grande a força de braços e de alma com que se agarra e depois do grupo desfeito fica a vontade e a grandeza de uma obra que nem ele, nem nós, vamos esquecer.

Para receber os aplausos do público, os artistas foram aos médios, tendo o cavaleiro deixado para o forcado o grosso das palmas, bem merecidas. Parabéns Nuno!

O toiro de José Palha, com 510 quilos não concorreria, de certeza para o prémio de apresentação. Para tourear este hastado estava João Ribeiro Telles que cravou os compridos sem grandes primores e nos curtos o primeiro não saiu bem e os seguintes com sortes ao piton contrário foi levando a água ao seu moinho. Depois de nova mudança de montada imprime uma nova filosofia de lide imprimindo grande velocidade à montada não tendo resposta correspondente do toiro, mas como este humilha no momento em que é suposto haver reunião, os ferros vão ficando.

Desta vez salta a trincheira João Maria Pinto que está muito bem perante o seu oponente a quem corrige a trajectória, mandando na investida e alapando-se quando o morlaco humilha. Até parece fácil com ajudas assim. Grande pega e enorme primeira ajuda.

Os artistas agradeceram nos médios como manda a moda.

O Canas Vigouroux com 550 Kg calhou a Francisco Palha era harmonioso no seu todo e recebeu os dois compridos com muita raça. O cavaleiro optou por uma lide com muita velocidade quarteando-se no final num palmo de terreno. Talvez o melhor tenha sido o seu sexto curto.

António Cardoso, filho do homem que dava o nome a este concurso de ganadarias veio com modos para a cara do toiro que nem o deixou assentar e arrancou com muita pata “levando tudo à frente”. Só à terceira tentativa e já com a primeira ajuda carregada resolveu a papeleta.

Para António Prates, além já lhe ter calhado o toiro que iria ganhar o prémio de apresentação, calha-lhe desta vez o que iria ganhar o prémio bravura o de Fernandes de Castro!

O jovem cavaleiro ainda não tem embalagem para estas andanças, mas se não for assim não se evolui. No primeiro comprido aguentou uma enormidade, no segundo deixou o ferro mas foi apanhado a meio da reunião. Nos curtos deixou cinco de boa nota, os que ficaram, porque pelo meio houve muitos falhanços. O toiro era nobre e investia sempre e de qualquer terreno mas o ginete nem sempre media bem as distâncias e nas reuniões o toiro ficava descomposto e o ferro ficava na mão do cavaleiro. Aconteceu várias vezes, mas há que tirar ilações e olhar para a frente. Mas é desta massa que eles, os bons cavaleiros, se fazem.

Este toiro foi para uma cernelha protagonizada pelos cernelheiros do grupo, Daniel Gonçalinho que se despedia e João Ferreira. Nas pegas de cernelha é preciso que se conjuguem uma série de factores o que nem sempre acontece: é preciso que os cabrestos funcionem como um grupo, que o toiro encabreste e que os campinos ajudem e não se deixem ver. É difícil conjugar isto tudo. Desta vez até houve por parte do cernelheiros uma pega de caras que não contou mas que teve que ser como recurso de segurança. A pega foi consumada com ajuda dos capotes dos bandarilheiros que estavam na trincheira bem como de Vasco Pinto que coordenou as operações. Aqui o cernelheiros entrou a tempo e o rabejador fechou a sorte mas longe dos cabrestos.

Larga ovação para o forcado que se despedia e para ele foi aberta uma excepção, e bem, para uma volta à arena bem merecida escutando farta salva de palmas.

O espectáculo foi dirigido pelo director Fábio Costa e assessorado pelo veterinário Hugo Rosa.

Os prémios em disputa foram entregues, o de bravura, prémio Estevão Augusto de Oliveira ao toiro da ganadaria Fernandes de Castro lidado em último lugar por António Prates e o de apresentação, prémio António Manuel Cardoso “Néne” ao da ganadaria António Silva lidado pelo mesmo cavaleiro em terceiro lugar.