As não-feiras do nosso descontentamento

António tereno

Aproxima-se a passos largos o 28 de Agosto, dia de significado único na minha terra: Barrancos.

Os sons dos “Tabuados” em construção, os cheiros da madeira e da areia na praça de toiros improvisada no coração da Vila, e o entusiasmo que vai tomando conta das pessoas que vão chegando, prenunciam a Feira de Agosto em honra de Nossa Senhora da Conceição, a grande festa que vai unir Barranquenhos residentes e ausentes.

É o reencontro da diáspora barranquenha, algo que só nós sentimos, e que damos a conhecer tão bem a quem a nós se associa nesses dias frenéticos de vivência e mágicos na sua essência.

Pois…mas este é o ano do desencanto responsável, assumido com a insofismável certeza que a saúde de todos, é um bem maior que temos que preservar.

A maldita COVID 19 ronda-nos, e vai ser traiçoeiro se o deixarmos, se abrirmos as nossas defesas e nos deixarmos enlear por ele!

Sábia e esclarecida a decisão da actual Comissão de Festas, que soube sobrepor o interesse comum acima de todos os outros, e, com valor anunciar atempadamente que este ano não teríamos a nossa feira. Atitude Louvável!

Não é a primeira vez que tal sucede, como o demonstra cabalmente o Relatório das Contas da Comissão de Festas de 1914, que refere numa nota: “Não se efectuaram os festejos em Agosto como é costume pela má impreção que causou em todos os espíritos o rebentar da guerra Europea que teve logar n´esses dias.” A sensibilidade e a solidariedade da gente barranquenha, no seu melhor!

E com a competência que lhe tinha sido consagrada pela vontade popular e tradição, refere ainda que os festejos teriam lugar a 6,12,13 e 14 de Setembro do mesmo ano.

Nessa altura convém salientar o carácter não só lúdico, mas também benéfico da festa. Como resultado foi distribuída carne de touro a 112 pobres e da receita arrecadada na venda de outros touros, o dinheiro iria ser distribuído por um “bodo” aos mais necessitados, e pelo “consultório dos pobres d´esta vila”.

Hoje há quem questione e tema que o interromper da Feira, possa trazer dissabores e afectar o futuro da mesma.

Nada disso, a Lei 19/2002, de 31 de Julho, diz claramente no seu artigo 3º, nº4, que permite os touros de morte: “no caso em que sejam de atender tradições locais que se tenham mantido de forma ininterrupta, pelo menos, nos 50 anos anteriores á entrada em vigor do presente diploma, como expressão de cultura popular, nos dias em que o evento histórico se realize.”

Temos assistido com tristeza aos contínuos cancelamentos de feiras consagradas no calendário taurino internacional, com destaque para: a Feria de Abril em Sevilha; a Feria de San Isidro em Madrid; Los Sanfermines em Pamplona; Arles e Nimes em França; e por cá já demos por perdidas o S. João em Évora; as Sanjoaninas nos Açores; o Colete Encarnado em Vila Franca de Xira e tantas outras.

Foram decisões difíceis, dolorosas, mas também responsáveis neste caso das autoridades locais e empresários, por absoluto imperativo de saúde pública, e baseada na legislação vigente no actual quadro pandémico.

Mas a Tauromaquia resiste, e pouco a pouco vai abrindo horizontes, com muitas proibições e tantas restrições é um facto, sempre olhada de lado pelos poderes públicos, como se de um parente pobre da cultura se tratasse!

Até onde irá a nossa afición?

O nosso gosto pela Festa Brava?

Vamos deixar que amputem os nossos gostos, expressos livre, e democraticamente?

Iremos abdicar das nossas seculares tradições culturais, ligadas á tauromaquia?

Temos que entender os sinais, e dar a volta por cima.

Veio a reabertura da nossa capital do toureio, o Campo Pequeno, fruto da coragem empresarial de um homem que ficará ligado também á 1ª Corrida do pós-confinamento, Estremoz, e em que pouca gente acreditava, afinal resultou.

Esperança é a palavra de ordem, no reinício da ainda possível temporada taurina, apesar de todas as restrições que conhecemos.

Mas os aficionados, os empresários, os toureiros e cavaleiros, os forcados, os ganadeiros, e todo o mundo ligado ao toiro, tem que dizer presente e estar mais unidos que nunca, para podermos vencer a batalha do futuro.

De uma vez por todas, queremos dizer Sim ás nossas Feiras, e que elas sejam a expressão do nosso Contentamento.