Opinião

Barrancos me mata!

Que me perdoem aqueles que costumam seguir as minhas modestas crónicas, mas hoje vou dedicar o meu escrito a Barrancos e aos Barranquenhos, pelo que significam no panorama taurino mundial.

Ontem como hoje, vivo e participo activamente nas festas da minha terra.

É o apelo da tradição cultural de séculos e dos costumes legados por tantos barranquenhos que me antecederam e construíram a nossa memória colectiva, páginas da nossa história, que fala mais alto.

Nada nem ninguém nos fará desistir de defender com unhas e dentes o que é património nosso, aquele sentimento de pertença que nos vai na alma, e aquela sensação única de orgulho que nos corre nas veias – uma vez barranquenho, para sempre barranquenho!

Deixem-me falar de algo que nos emociona, daquela sensação de ansiedade que nos percorre durante o para nós sagrado mês de Agosto, no recorrido que vai desde o lançamento do primeiro foguete logo no início do mês anunciando a festa, passando pelo dia de Santa Maria com o peditório e o leilão, desembocando naquele ritual da construção dos Tabuados na praça e na chegada da areia, transformando o recinto em ruedo/rectângulo taurino improvisado, espaço mágico onde tudo acontece!

Finalmente começa a ansiada “Fêra”, dia vinte e oito de manhã na missa são entronizados os novos festeiros, para garantir a continuidade das mesmas.

Depois tem lugar a procissão em honra da nossa padroeira Nossa Senhora da Conceição, que dá nome à festa, e a seguir é uma sucessão de acontecimentos que tornam Barrancos diferente: encerros, as tradicionais touradas, espectáculos, bailes, naquela amálgama de gente de cá e de fora, todos irmanados no desejo de viver umas festas sem paralelo.

Antes como agora, em 1914 a Comissão de Festas de então decidiu não efectuar as mesmas na data habitual justificando: “Não se efectuaram os festejos em Agosto como é costume pela má impreção que causou em todos os espíritos o rebentar da guerra Europea que teve logar n”esses dias” (1).

Além disso a função da festa, com a sua predominância taurina, comportava também uma função social importante, como o atesta “o bodo a 200 pobres da vila”.

Da venda da carne dos toiros lidados, uma parte do dinheiro era distribuído pelos pobres, outra ia para o “consultório dos pobres d`esta vila” (para quem não tinha possibilidade de pagar um médico). E ainda, uma parte da carne, era distribuída pelos necessitados da Vila.

Depois veio a chamada Gripe Espanhola, a grande recessão económica e financeira mundial, a 2ª grande Guerra, vieram tempos difíceis e houve fomes por todo o mundo, mas a Festa/Feira de Agosto não foi interrompida.

Alturas houve em que vivemos momentos conturbados no que toca ao maior acontecimento taurino barranquenho, refiro-me ao período de 1997 a 2002, com constantes ataques à nossa tradição cultural.

Eles foram as Providências Cautelares e Processos Judiciais, os ataques nos meios de comunicação social, e as constantes ameaças anónimas de quem por cobardia não dá a cara, mas tudo inserido na estratégia gizada contra nós pelo lobby antitaurino.

Mas a nossa força em resistir foi maior, tocavam em algo que para nós é inviolável, o legado dos nossos antepassados, aquilo que sempre nos uniu, a Fêra de Barrancos com todas as vivências culturais que comporta.

Tive a honra de ser o timoneiro daquela luta de resistência à frente de todo o elenco municipal, as Comissões de Festas foram inexcedíveis no seu esforço, mas o meu povo foi extraordinário em todas as batalhas que então travámos. Claro que tivemos um bom suporte jurídico na retaguarda, é evidente que muitos fazedores de opinião (opinion makers) de Portugal e países taurinos nos deram a mão, que muitos políticos nos ajudaram com os seus projectos de lei a favor de Barrancos.

Foi evidente o saber estar da GNR (oficiais e soldados) na gestão eficiente da “polémica”, respeitando o nosso direito à diferença e a preservação da ordem pública, mas sem a resistência organizada, a chama da vontade e a unidade dos Barranquenhos, nada disso teria sido possível!

Tudo isto até chegarmos à indesejada Pandemia de COVID-19, com o seu rol de proibições.

Agora estabilizada a situação em termos de saúde pública, a nossa ansiedade é grande, esperando o regresso dos toiros a Barrancos.

Agosto mês mágico, volta com a natural expectativa, a desafiar-nos para viver o sentimento e a alma barranquenha, esperando que quem vier por bem  se integre no nosso sentir colectivo de povo de fronteira.

Hoje infelizmente voltamos a viver tempos de guerra com agressões que nunca são gratuitas, pelo contrário arrastam detrás de si um rol de desgraças, com o espezinhamento de povos e culturas, sem a mínima consideração nem respeito pela soberania dos países, e muito menos pela vida humana.

Felizmente a tauromaquia resiste no meio da desgraça, e dá o exemplo da coexistência salutar que deve reger o nosso comportamento em sociedade, e os próprios toureiros e a gente taurina que são gente de bem, mostram em cada manifestação artística que é possível viver em democracia, exaltando a tauromaquia e respeitando quem não gosta!

Para nós em Barrancos, a Festa representa a defesa dos nossos valores culturais, e o aprofundar da coesão social que é nosso apanágio e ressurge com força nas “ditas polémicas” e nos momentos difíceis da nossa História. Agosto vale a pena, porque “Barrancos me mata”/ Barrancos mostra bem o orgulho de ser Barranquenho!

António Tereno

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