Caso Aldeia da Luz: “A situação foi assumida pelo maiorial que irreflectidamente e indevidamente teve esta atitude”, diz Presidente da Associação de Toureiros em grande entrevista (c/som)

No passado sábado, 31 de Agosto, realizou-se uma corrida de touros na Aldeia da Luz que ficou marcada por um caso que tem agitado o meio taurino. Os intervenientes neste espectáculo, nomeadamente os toureiros e o empresário assinaram um documento onde levantavam a suspeita sobre dois touros da ganadaria de Eng.º Luís Rocha ali lidados, por estes darem sinais de já terem sido corridos.

Já esta semana, em declarações ao Toureio.pt, o Presidente da Associação de Criadores de Toiros de Lide, João Santos Andrade, confirmou a situação e a abertura de um inquérito a fim de esclarecer toda a situação.

O Toureio.pt falou agora com Nuno Pardal, Presidente da Associação Nacional de Toureiros (ANDT), para sabermos qual é a reação desta entidade relativamente a este assunto.

 

Existiam duas reses que já tinham sido toureadas anteriormente e que saíram novamente a praça”

 

Nuno Pardal confirma que “o relatado foi efectivamente aquilo que tem vindo a público, que existiam duas reses que já tinham sido toureadas anteriormente e que saíram novamente a praça”, acrescentando que “os toureiros no final do espectáculo juntaram-se com o Delegado Técnico e pediram para fazer uma acta, onde denunciaram o caso de os touros estarem toureados. Portanto todos os toureiros, bandarilheiros, cabeças-de-cartaz e o promotor do espectáculo, ou pelo menos o representante da entidade que estava a organizar o espectáculo, assinaram essa acta e enviaram para o IGAC, para a Associação de Toureiros e para a Associação de Ganadeiros.”

 

Não há neste momento qualquer dúvida de que saíram dois touros toureados nessa corrida.”

O Presidente da ANDT, diz que perante esta situação “contactei junto dos meus associados e também junto da Associação de Ganadeiros para tentar perceber o que se tinha passado e fomos tentar indagar, nunca duvidando da palavra dos toureiros obviamente, para tentar perceber a veracidade e também tentar provas que provassem, que de facto estes touros tinham sido toureados. E chegámos a essa conclusão, e portanto não há neste momento qualquer dúvida de que saíram dois touros toureados nessa corrida.”

 

“Goste-se ou não da ganadaria e do ganadeiro, tem de ser tratado de forma exemplar”

Sobre a tomada de posição da ANDT e um possível veto á ganadaria, Nuno Pardal é peremptório e diz que “poderá haver um veto! Essa situação está em cima da mesa, logicamente. Há uma coisa que não nos podemos esquecer, é que quem se mete lá dentro (seja cavaleiro, matador, forcado ou bandarilheiro) tem de ter valor para lá estar dentro mas não se pode subverter as coisas nem a forma como todos expõe a sua arte e a sua profissão. E principalmente se existe uma situação como esta, onde potencia muito mais o risco de acidente, temos de ter muita atenção”, acrescentando que “neste caso, goste-se ou não da ganadaria e do ganadeiro, tem de ser tratado de forma exemplar para que no futuro isto não volte a acontecer. Graças a Deus não houve nenhuma situação preocupante de acidentes, houve efectivamente acidente mas nada de relevância. Contudo, podia ter havido. E isso não podemos permitir que se brinque com a profissão de toureiros. E agora falando de cavaleiros, é que não é apenas um toureiro é também um cavalo, a condição de um acidente que o cavalo possa ter e do treino que tem. Porque um cavalo que apanhe um touro destes pela frente, com certeza que o processo de treino que tem tido volta tudo para trás e o cavaleiro vai ter muito trabalho para voltar a dar confiança ao cavalo.”

 

“Acho que os ganadeiros têm de ser exemplares para problemas como estes”

Apesar de o veto estar em cima da mesa, o Dirigente da ANDT refere que “vamos esperar que a associação que rege os ganadeiros tome também uma atitude, porque penso que a associação tem previsto no seu regulamento coimas e penas para este tipo de procedimento e portanto acho que os ganadeiros têm de ser exemplares para problemas como estes que aconteceram e logicamente que nós não vamos também fugir às nossas responsabilidades e vamos também actuar e reagir da melhor forma na defesa dos toureiros.

 

“A situação foi assumida pelo maiorial que irreflectidamente e indevidamente teve esta atitude”

Sobre possíveis responsáveis da situação, a ganadaria, o empresário ou a Associação de Ganadeiros, Nuno Pardal afirma que “logicamente que a ganadaria é a responsável. Agora há que apurar, e posso já adiantar que há um assumir de culpa dessa situação, e essa situação foi assumida pelo maiorial que irreflectidamente e indevidamente teve esta atitude, mas obviamente que a ganadaria é quem responde pelos touros que lá tem e pelas pessoas que lá trabalham, portanto obviamente que a ganadaria é a responsável”. Já sobre a Associação de Ganadeiros refere que “não sacaria responsabilidade directa, mas temos estado a trabalhar em conjunto, quer a Associação de Toureiros quer a de Ganadeiros, para que haja um maior controle, nomeadamente nas demonstrações de toureio, nas aulas práticas, nas festas, nos próprios recortadores, que como sabemos esses espectáculos não sob alçada do IGAC, não tem nem delegado técnico nem veterinário, e como é lógico é preciso criar um macanismo de controlo para todas as reses bravas que vão para esses espectáculos. Porque senão vamos ter sempre esse fantasma de que um touro que vá para um espectáculo de recortadores, largada ou outro dos que referi, poderá aparecer numa corrida de touros e nós não conseguimos garantir que não aconteça, a não ser pela seriedade dos seus intervenientes e dos seus ganadeiros. Mas como já percebemos nem sempre a seriedade vem ao de cima e os toureiros não podem viver com o fantasma de saírem à praça e apanharem com um touro que já saiu noutro espectáculo. Portanto aquilo que nós estamos a pedir à associação de ganadeiros, e nós podemos colaborar de alguma forma quanto mais não seja em discussão desse mecanismo, que possa existir algum controlo sobre todo todas as reses que entram numa praça de touros ou neste tipo de festas.”

 

“Não é um caso virgem, já tinha acontecido no passado, noutro espectáculo”

Questionado se esta temporada ou em temporadas anteriores há relatos de casos semelhantes, o Presidente da ANDT refere que “nós temos os relatos que de facto esta história com a ganadaria do Eng.º Luís Rocha, não é um caso virgem, já tinha acontecido no passado, noutro espectáculo, na altura não se tomou qualquer atitude porque não nos chegou a nós essa situação e só agora vem à baila por causa desta da Aldeia da Luz e por isso não foi tomada uma atitude mais atempada, por desconhecimento da nossa parte.”

 

“Toiros que já saíram à praça mas que depois são recolhidos e trocados pelo sobrero, e esses touros voltam novamente à praça (…) e também estamos severamente contra esta situação”

Já sobre possíveis casos com outras ganadarias, Nuno Pardal afirma que “não, isso não, logicamente saem aqueles toiros, uns melhores que outros, mas isso não me parece”, no entanto alerta para uma situação que acontece com regularidade, nomeadamente “toiros que já saíram à praça, que já tiveram lances de capote, mas que depois por alguma razão, ou porque não investiam, ou porque estava diminuídos fisicamente são recolhidos e trocados pelo sobrero, e esses touros voltam novamente à praça”, acrescentando que “nós Associação de Toureiros estamos muito conscientes desta situação e também estamos severamente contra esta situação, porque o regulamento diz que o touro é toureado a partir do primeiro ferro compridos e na realidade a minha interpretação um touro a partir do momento em que leva um lace ou dois de capote, está toureado e mesmo que vá para dentro e não lhe tirem o certificado, não deve voltar a aparecer numa praça de touros, pois não nos podemos esquecer que a lide é composta por uma equipa, bandarilheiros e cabeças de cartaz e curiosamente nos cavalos os primeiros a sentir o touro são os bandarilheiros, se um touro que já levou 10 capotazos de certeza que não será o mesmo quando entrar novamente numa arena pela segunda vez”.

 

Tínhamos todo o poder para tomar uma atitude de imediato e aquela que achasse adequada”

Sobre o próximo passo a ter pela ANDT relativamente ao caso da Aldeia da Luz, Nuno Pardal refere que “a Associação tínhamos todo o poder para tomar uma atitude de imediato e aquela que achasse adequada”, mas “a Associação de Toureiros acha que, como já perceberam noutras situações, eu acho que essa discussão deve ser alargada também pelos Associados, não deve ser só a associação a criar uma resolução de secretaria e decretar o que se deve fazer, acho que os Toureiros têm todo o direito e legitimidade de também eles terem uma palavra a dizer sobre esta situação e é o que temos vindo a fazer desde o passado fim-de-semana. Temos estado a auscultar todos os toureiros, bandarilheiros, cabeças de cartaz sejam eles matadores ou cavaleiros, para tentarmos chegar aqui a um consenso enquanto penalização a ter e seguramente que nós também vamos tomar essa medida. Logicamente eu acho que devíamos aguardar primeiro pela Associação de Ganadeiros, sendo ela a associação que rege todo o regulamento dos Criadores de Toiros de Lide”.

 

 

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