Em Portugal “existe uma alegria quando as coisas não correm bem e isso sinceramente nunca vi mais nenhum país”, diz Nuno Casquinha ao Toureio.pt

Nuno Casquinha teve uma temporada triunfal além-fronteiras e no término a temporada concedeu uma entrevista ao Toureio.pt onde aborda a sua temporada, a actualidade da festa brava, o que a afecta e valoriza e ainda deixa um cartel que montaria caso lhe fosse dada essa possibilidade.

Toureio.pt (T) – A temporada em Portugal está a terminar e a temporada de Nuno Casquinha? Já é possível fazer um balanço?

Nuno Casquinha (NC) – O balanço desta temporada é extremamente positivo. Toureei 41 espectaculos, entre Peru, Espanha, Portugal e Venezuela, um número ao qual nunca tinha chegado.

É sempre uma satisfação ficar em primeiro lugar do escalafón, como voltou a acontecer este ano no Peru, mas para mim foi mais importante o facto de me ter sentido a evoluir ao longo do ano.

T – Dos espetáculos toureados em Portugal, em qual se sentiu mais a gosto?

NC – Em Portugal toureei duas corridas, a primeira em Morais, onde pude desfrutar mais e quiçá tourear com mais qualidade porque os toiros assim o permitiram. Na outra corrida, em Vila Franca, os registos já tiveram de ser outros, não poderia passar desapercebido no meu regresso à Palha Blanco e aí sobretudo tive de atacar, mostrar a minha atitude e que os triunfos no Perú e em Espanha não eram fruto do acaso. Toureei também um festival em Angra do Heroismo, onde não tive sorte com os toiros que me calharam, mas creio que deixei bem patentes as minhas ganas e o meu querer, para não deixar passar nem uma tarde em branco.

T – Esta foi uma temporada em que o Nuno regressou ao Peru e em que se apresentou na Venezuela…

NC – Foi uma decisão acertada a de voltar a terras peruanas, pois voltei a gozar do enorme carinho, respeito e admiração do público. Graças ao Perú pude somar um número alto de corridas e isso sem dúvida leva a sentir nos mais moralizados e com mais confiança diante da cara do toiro.

Esta temporada também aconteceu o meu debute na Venezuela, concretamente em Maracay, onde tive a sorte de poder triunfar e deixar ambiente para repetir. Fiquei encantado com a sabedoria e a aficion que existe também naquele país.

T – Os triunfos sucederam-se no Peru, muitos dizem que por lá os touros são pequenotes e fáceis, é mesmo assim?

NC – Que se diga isso em Portugal, sinceramente a mim não me surpreende, pois aqui são “especialistas” em tentar desvalorizar, principalmente pessoas que nada conseguiram na vida. Já vi imensos toureiros importantes de Espanha não conseguirem triunfar no Perú por vários motivos, pela enorme altitude de alguns sítios, pela diferença no comportamento do toiro e por estarem num país onde tudo é diferente, portanto essa teoria do toiro “pequeno e fácil” cai totalmente por terra. Em definitiva, contados são os que conseguem superar todas as adversidades e triunfar quase a diário.

T – Foi a temporada planeada desde início ou as corridas foram aparecendo conforme os triunfos alcançados?

NC – Os contratos foram aparecendo conforme se foram sucedendo os triunfos, no inicio da temporada não tínhamos ideia das corridas que iríamos tourear. Mas isso sem dúvida é o bonito desta profissão, tudo esta complicado e depois observamos como se vão abrindo as portas pouco a pouco, única e exclusivamente pelo que fazemos na arena e não por outros interesses.

T – Considera que é algo que não acontece em Portugal? Ou seja, os triunfos não são premiados com contratos…

NC – Creio que não acontece em Portugal nem em quase nenhum país taurino, tirando o Perú onde ainda existe uma pureza que aqui já não se vê. Lá são as comissões de aficionados que montam os cartéis, por isso não existe interesses pelo meio. Mas volto a repetir, isso não só acontece em Portugal, mas sim em quase todo o mundo e sinceramente já vejo como algo natural.

T – Esse poderá ser um dos motivos para o Nuno não atuar mais em Portugal e basear as suas atuações além-fronteiras?

NC – Sem dúvida que esse é um dos motivos de tourear pouco em Portugal. Mas também porque creio que os contratos ganham se na praça e não nos escritórios, por essa razão, as coisas se calhar tardam mais em chegar, mas quando chegam têm um sabor especial porque é só mesmo graças aos nossos méritos.

T – Que outros factores são a causa de tourear pouco em Portugal?

NC – Outro dos motivos de tourear pouco em Portugal creio que seja por nunca ter tido uma temporada rotunda como esta de 2017. Por isso considero que a culpa também foi minha e não só por outros factores externos.

Agora toca continuar a melhorar, os contratos mais tarde ou mais cedo irão aparecer, disso tenho a certeza.

T – O facto de não poder exercer a sua actividade de matador na íntegra em Portugal é frustrante? E Acredita que podemos voltar a ter a morte do touro na arena?

É um pouco triste não se poder exercer a nossa profissão no nosso país, penso que os triunfos teriam outra importância e repercussão com a morte do toiro na arena e o corte de orelhas. Sentiria me mais feliz se isso acontecesse sem dúvida, mas temos de nos adaptar à realidade.

Relativamente à outra pergunta, eu quero acreditar e gostaria que assim fosse, embora seja plenamente consciente que não será fácil voltar a termos toiros de morte em Portugal.

T – Ainda voltando aos seus poucos espectáculos em Portugal. Há umas temporadas atrás um colega seu comentava que era difícil entrar nos cartéis em Portugal, porque não tinha touros para oferecer, nem trocas para fazer, partilha desta ideia?

NC – Partilho dessa ideia sim. Se quiser se entrar rapidamente em vários cartéis a forma é entrar nesse método. Mas com trabalho, persistência e paciência, tudo vai chegar, se calhar duma forma mais lenta, mas muito mais satisfatória porque sabemos que foi da forma mais digna e honrada que se conseguiu.

T – Já atuou em vários países, qual é a afición que mais o acarinha?

NC – Cada país tem a sua aficion particular, por exemplo no Peru e na Venezuela são mais carinhosos e cálidos, enquanto na Europa o público analisa mais antes de se entregar com um toureiro. Foi um privilégio poder tourear em quatro países esta temporada, com aficionados e tipos de toiros muito diferentes, mas em todos eles ter tido a sorte de poder triunfar e deixar Portugal bem representado.

T – Bem, mas falemos agora de 2018, já começou a pensar na temporada 2018? Será novamente baseada no exterior do país?

NC – Esta temporada 2017 terminou para mim no sábado passado, estamos agora numa fase de balanço e também de pensar já na próxima. Vários objectivos foram concretizados graças a Deus, agora é momento de se marcar outros para 2018.

Em principio será uma temporada baseada novamente no estrangeiro, mas imagino que voltarei a actuar algumas tardes em Portugal.

T – E relativamente à sua equipa para para 2018?

NC – A equipa irá manter se a mesma em 2018, tanto o meu apoderado Aldo Risco como o meu chefe de imprensa David Muñoz, assim como as quadrilhas que me acompanharam esta temporada na América Latina e na Europa, vão continuar comigo.

São excelentes profissionais e amigos da minha confiança que estiveram ao meu lado e merecem continuar a desempenhar as suas respectivas funções.

T – Conte-nos, já teve a sua faena de sonho? Ou é algo impossível de alcançar?

NC – A faena sonhada nunca se chega a alcançar. Perseguimos a perfeição mas nunca a conseguimos totalmente, só em alguns momentos, o que nos dá moral e animo para continuarmos a trabalhar nesse sentido.

Aliás penso que é positivo nunca realizarmos a nossa faena sonhada, porque senão provavelmente nos iríamos acomodar por ter alcançado algo quase inatingível. O toureio é uma corrida de persistência e não de velocidade, quando se conseguem umas coisas, partimos para outras. Nunca é suficiente, nunca chega, podemos sempre dar mais de nós mesmos!

T – Se montasse um cartel, qual seria a escolha?

NC – Como admirador de todos os toureiros e as respectivas formas de tourear, esta pergunta não me é fácil de responder, pois haveria imensos maestros que colocaria no tal “cartel sonhado”.

Para facilitar a escolha, seria seis matadores: Joselito “El Gallo”, Juan Belmonte, Manolete, José Tomas, El Juli e Alejandro Talavante.

T – Por falar em montagem de cartéis, como vila-franquense, como viu a feira de Outubro na Palha Blanco, que tanta polémica deu?

NC – Respondendo neste caso como vilafranquense e aficionado, deu me pena não ver a corrida de terça-feira nocturna cheia como era costume. Creio que os dois carteis estavam bem montados, misturando toureiros com ambiente em vila franca e uma novidade. No aspecto dos toiros as coisas não funcionaram como se esperava, mas creio que antes de atacarmos sem piedade, devemos antes colocar nos na situação do empresário, no entanto acusar e criticar é sempre mais fácil…

T – Como analisa a festa brava em Portugal?

NC – Esta temporada, por estar quase todo o ano no estrangeiro, poucas corridas vi em Portugal. Creio que houve um certo renascimento do toureio a pé, não consolidado ainda, mas já foi um passo. Foi a temporada da afirmação dos matadores portugueses, tanto cá como além-fronteiras, penso que mostrámos que temos capacidade para que a aficion portuguesa tenha orgulho em nós.

T – O que mudaria já?

NC – O que mudaria, embora saiba que seria impossível, seria a mentalidade negativa que infelizmente reina no nosso país.

Não acho normal constantemente tentar retirar se méritos aos triunfos dos toureiros portugueses, existe uma espécie de alegria quando as coisas não correm bem e isso sinceramente nunca vi mais nenhum país.

Temos profissionais extraordinários em todas as áreas, já é tempo de se ter orgulho neles e de começar a valorizá-los antes de que tenham de ir para o estrangeiro para ser reconhecidos!

T- Como analisa a imprensa taurina em Portugal?

NC – Na minha opinião a imprensa taurina em Portugal é bastante digna, temos páginas, programas de rádio e televisão que continuam a resistir à crescente moda anti-taurina. No meu caso particular, só tenho palavras de agradecimento à imprensa portuguesa por sempre estar atenta e publicar os resultados das minhas actuações além-fronteiras.

T – Como analisa as várias polémicas que constantemente existem entre os diversos sectores da tauromaquia?

NC – A polémica é algo inerente neste mundo da tauromaquia, foi algo que sempre existiu ao longo dos tempos. O que não deveria haver era a desunião que actualmente observamos nos diversos sectores.

Não deveria privar o interesse particular e sim o mutuo, que é a festa dos toiros, pois nós vivemos dela e devemos cuidá la, não só aproveitarmos dela.

T – Qual a ganadaria que lhe falta tourear e que seja um sonho?

NC – Todos nos sentimos mais cómodos com o encaste Domecq, porque são toiros que geralmente nos deixam fazer um tipo de lide mais moderna, mais do gosto do público actual; mas eu particularmente gostaria de completar o leque das ganadarias duras que ainda me faltam: Dolores Aguirre, Cebada Gago e Celestino Cuadri.

T – Quais as ganadarias mais duras que enfrentou?

NC – Já foram umas quantas ganadarias duras que enfrentei e com muita honra posso dizê lo, pois sempre gostei de tourear todos os encastes e de certa forma colocar me à prova com as ganadarias mais temidas e exigentes. Posso salientar as mais sonantes: Victorino Martin, Miura, Partido de Resina – Pablo Romero, Monteviejo, Hernandez Plá, Prieto de la Cal, Moreno Silva – Saltillo, Juan Luis Fraile, Concha e Sierra, José Escolar, Palha… Foram algumas delas.

T- Qual o touro a quem não conseguiu retirar toda a qualidade que ele tinha?

NC – Houve e continua a haver toiros aos quais não conseguimos retirar toda a bravura que levam dentro porque não os entendemos correctamente, por isso o toureio é tão apaixonante, é uma busca constante da perfeição e nunca se consegue totalmente. Sempre há um toiro ou até uma vaca no campo que nos ensina algo novo.

O primordial neste aspecto é manter sempre a humildade de continuar a aprender.

T – É muito crítico para com o seu trabalho?

NC – Sempre fui demasiado critico comigo mesmo ao analisar as minhas faenas, mas actualmente já consigo ter um equilíbrio na avaliação das mesmas, sem ser negativo nem obsessivo, algo que acontecia anteriormente e que possivelmente me retirava auto-confiança e me impediu de evoluir mais rapidamente. Agora, fruto do natural amadurecimento, já consigo ter um discernimento mais correcto.

T – Que mensagem deixa aos leitores do toureio.pt?

Quero enviar os meus parabéns a toda a equipa do toureio.pt pela excelente labor informática que fazem, mantendo a página sempre actualizada.

Por outro lado quero desejar aos leitores uma óptima temporada 2018 e que continuem com esta paixão tão bela que é a festa brava.

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