“Quem se vende por meia dúzia de trocos para este ou aquele entrar no cartaz (…) É extremamente ridículo!”, dizem representantes da empresa Toiros e Tauromaquia

A temporada taurina em Portugal iniciou de forma trágica com a morte do empresário António Manuel Cardoso “Nené”, gestor da empresa Toiros e Tauromaquia, a mais antiga de Portugal.

Com a trágica morte do conhecido empresário a empresa, que geria as praças de Évora e Alcochete e apoderava o cavaleiro António Prates, continuou a sua atividade empresarial pelas mãos dos seus filhos Margarida e António José Cardoso.

No sentido de fazer o balanço desta temporada da empresa Toiros e Tauromaquia, o Toureio.pt falou com Margarida e António José Cardoso, numa entrevista que poderá ler de seguida:

 

Toureio.pt (T) - A temporada terminou, mas antes de irmos concretamente ao balanço, falemos de algo que ninguém estava à espera, o falecimento de António Manuel Cardoso “Nené”, por isso começava por lhe perguntar, quando de repente se enfrenta com uma empresa taurina para gerir, o que lhe passou pela cabeça?

Toiros & Tauromaquia (T&T) - O facto de termos ficado com uma empresa taurina para gerir e a mesma ser a mais antiga de Portugal não nos assustou, porque já trabalhávamos com o nosso Pai. E a única coisa que nos passou sempre pela cabeça, é que não existia outra hipótese sem ser continuarmos com Toiros & Tauromaquia, Lda.

T - Alguma vez, ao longo da temporada pensaram em desistir?

T&T - Nunca pensamos em desistir. É verdade que durante a temporada surgem sempre situações controversas, mas as mesmas só nos deram ainda mais força e vontade de continuar este projeto.

 

O maior ensinamento que o nosso Pai nos deixou foi a nunca desistirmos do que queremos alcançar

 

T - Qual foi o maior ensinamento que Nené vos deixou?

T&T - O maior ensinamento que o nosso Pai nos deixou foi a nunca desistirmos do que queremos alcançar e consideramos que essa lição a aprendemos da melhor forma.

 

Onde sentimos mais dificuldade, foi em garantir que os toiros a serem lidados nas Praças tinham o trapio e a apresentação

 

T - É certo que Nené já tinha muita coisa alinhavada, mas não tudo… o que foi mais complicado ao longo da temporada?

T&T - Já estava muita coisa alinhavada e partilhada connosco, o que nos facilitou perceber ao certo quais os seus planos para este ano 2018. Mas onde sentimos mais dificuldade foi em garantir que os toiros a serem lidados nas Praças que geríamos tinham o trapio e a apresentação adequada.

T - É publico que antes de Nené falecer a Margarida e o António já o ajudavam, mas tinham de facto o verdadeiro conhecimento de como tudo isto funcionava no ceio da Festa? Ou agora que estiveram á frente da empresa houve muitas surpresas? Quais?

T&T - Como o Hugo referiu já o ajudávamos e consequentemente, sempre tivemos conhecimento como tudo funcionava. Não tivemos grandes surpresas, pelo menos negativas. Tivemos sim a confirmação de alguns amigos, que sempre estiveram ao nosso lado nesta temporada 2018.

T - Logo após o falecimento do seu Pai, vieram a público algumas noticias que deram conta de alguns agentes da festa terem ido contactar os proprietários das praças de Évora e Alcochete a fim de saber como seria a sua gestão, isto ainda nem tinha sido o funeral de Nené, como viu estas atitudes?

T&T - Vindo das pessoas que vieram não nos surpreende. Achamos que não era o local, nem o momento apropriado. Mas não criticamos. As atitudes ficam para quem as pratica.

T - Qual foi a maior dificuldade ao longo da temporada?

T&T - Como já referimos, a maior dificuldade foi garantir que os toiros lidados nas nossas Praças tinham o trapio e a apresentação desejado. Apesar de ter sido uma dificuldade, achamos que foi superada.

T - Ainda em 2017 houve noticias que davam conta da contratação de Pablo Hermoso de Mendoza para Évora e Alcochete, falando-se mesmo na apresentação de Guillermo em Alcochete, o que correu mal para depois se anunciar Ventura para Évora?

T&T - Nada correu mal. Foi simplesmente estratégia empresarial, para que as coisas corressem como correram... Bem!

T - E em termos de toiros, como foi selecionar os touros para as corridas que promoveram?

T&T - Não foi fácil, mas julgamos que mantivemos o registo que Toiros & Tauromaquia sempre teve.

 

Para ser negociado tem que existir respeito de ambas as partes negociadoras

 

T - Em termos de toureiros, quais foram os mais difíceis de negociar?

T&T - Não existiram difíceis negociações. Para ser negociado tem que existir respeito de ambas as partes negociadoras e isso nunca faltou em todas as conversas tidas entre TT e os respetivos apoderados.

T - Os cartéis que montaram e os touros escolhidos, tiveram em conta os gostos do público ou as indicações e exigências de toureiros?

T&T - Em tudo o que montamos tivemos em conta o registo que TT sempre apresentou e o que o aficionado mais aprecia, que sem dúvida é o "juiz da festa".

T - Não deixaram cair o apoderamento de António Prates, o que pergunto é, a montagem dos cartéis nas vossas praças tiveram em conta algumas trocas pensando no apoderamento de Prates, ou houve uma separação de interesses nesse aspecto?

T&T - Houve uma separação muito evidente. São projetos diferentes e geridos de forma bem distinta, em que o Cavaleiro António Prates atinge as suas conquistas pelo seu valor e mérito.

T - Falando agora de 2019, a Margarida e o António irão continuar nesta área empresarial e à frente da empresa Toiros e Tauromaquia?

T&T - Só Deus saberá. Este ano está terminado e com sucesso. É tempo de analisar e tomar decisões.

T - O que os leva a continuar? O manter esta actividade em memória de Nené, ou mesmo porque gostaram e consideram que o vosso trabalho resultou?

T&T - O que nos irá levar a continuar será o grande amor que temos pelo Mundo dos Toiros, tal como o nosso Pai nos ensinou ainda mal sabíamos falar. Por isso, consideramos que é em memória dele, mas também porque o nosso trabalho resultou de forma positiva.

T - Irão manter-se na gestão das praças de Alcochete e Évora? Poderá haver a hipótese de concorrerem a outras praças? Relativamente a Évora e Alcochete, irão manter o mesmo número de corridas?

T&T - Existem alguns projetos para 2019. Podemos garantir que o que pretendemos é elevar TT comparativamente com a temporada 2018. Mas, a seu tempo tudo se saberá...

T - O vosso Pai, ainda não tinha acabado uma temporada e já tinha toureiros contratados para a próxima, convosco também acontece o mesmo? Já há algum toureiro contratado?

T&T - Tem que existir um trabalho antecipado para garantir que tudo decorre da melhor forma. Já existem alguns toureiros contratados e agora com o encerramento da temporada serão alinhavadas as restantes corridas.

T - E o apoderamento de António Prates é para continuar?

T&T - Sem dúvida alguma que o António Prates se evidenciou, alcançando diversos triunfos de nota alta nesta temporada que passou. Sendo uma temporada de triunfo e das melhores que teve na sua, ainda, curta carreira. Quando apoderados e cavaleiro chegam ao fim do ano e refletem que foi muito positivo não há motivo para alterações, ou melhor como se diz "equipa que ganha não mexe".

António Prates para o ano irá estar à imagem de TT com humildade, seriedade e honestidade conquistando os triunfos por mérito próprio e não pelos "podres da festa".

T - Falando agora no geral, como vê o estado actual da tauromaquia?

T&T - A Tauromaquia tem apostado na qualidade dos espetáculos em detrimento da sua quantidade. Achamos que é um fator positivo, assim, realizam-se os espetáculos taurinos apropriados, sem ser em excesso nem em escassez, indo ao encontro dos interesses do aficionado.

 

Quem se vendem por meia dúzia de trocos para este ou aquele entrar no cartaz A, B ou C... É extremamente ridículo!

 

T - Se pudesse o que mudaria na Tauromaquia Portuguesa?

T&T - Mudaríamos um pouco de tudo e principalmente, a falta de palavra, honestidade e humanidade. Pensamos que hoje em dia há uma grande falta de seriedade e respeito por quem cá anda a fazer o bem. Quem se vende por meia dúzia de trocos para este ou aquele entrar no cartaz A, B ou C... É extremamente ridículo! Já para não falarmos das trocas e baldrocas, pensamos que um toureiro, um grupo de forcados ou uma ganadaria têm que entrar nas grandes Feiras, nas grandes Praças pelo seu valor e mérito. Mas pronto, sabemos que andamos, como deve de ser, como o nosso Pai nos ensinou.

T - E como vê o estado do sector empresarial? E a atuação da APET?

T&T - Não é fácil este setor empresarial, porque o "serviço" é adquirido por quem goste mesmo de Corridas de Toiros. Não existe meio-termo, ou se gosta ou não se gosta. O que nos pode deixar tranquilos sobre o futuro da tauromaquia é a crescente quantidade de jovens nas Praças de Toiros. A APET é uma associação que visa defender os interesses dos empresários, mas nem sempre é fácil resolver os problemas que surgem nem agradar a todos. TT nada tem a apontar à APET, todas as dúvidas e/ou questões têm sido resolvidas e esclarecidas com a seriedade que assim o exigem.

T - Relativamente à Prótoiro, o vosso Pai por vezes chegou a criticar a atuação da Federação, qual é a vossa opinião?

T&T - Não era fácil "cair nas boas graças" do nosso Pai. E é uma verdade que inicialmente a Prótoiro mantinha uma posição pacífica nas mais diversas questões, mas essa posição alterou-se. Tornou-se uma federação com voz ativa na tauromaquia, com as mais diversas iniciativas. E essa alteração foi muito elogiada pelo nosso Pai na altura e por nós na atualidade.

T - Para terminar que mensagem deixa aos leitores do Toureio.pt?

T&T - Que esperemos que tenham gostado da nossa temporada 2018 e que prometemos que iremos fazer de tudo que esteja ao nosso alcance para melhorar em 2019.

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