A atitude do Primeiro-Ministro "não me agrada, mas os seus serpenteios, parecem já estar a causar fracturas no Partido Socialista", diz Rui Bento Vasquez

Estamos em pleno defeso, altura em que são feitos balanços e se prepara a próxima temporada. Neste sentido o Toureio.pt, tem realizado uma série de entrevistas com vários intervenientes da Tauromaquia portuguesa a fim de compreender como decorreu a temporada que findou e como se prepara a próxima.

Hoje apresentamos-lhe a primeira parte de uma grande entrevista com Rui Bento Vasques, Diretor das Actividades Tauromáquicas do Campo Pequeno. Nesta primeira parte Rui Bento faz o balanço da temporada 2018 na principal praça do país, abordando o que de melhor e menos bom se passou no Campo Pequeno. Nesta primeira parte Rui Bento fala ainda sobre a questão do IVA e comenta as afirmações da Ministra da Cultura.

Uma entrevista que poderá ler de seguida:

 

Toreio.pt (T) - Qual o balanço da temporada de 2018?

Rui Bento Vasques (RBV) - Balanço positivo, sem dúvida. Temporada muito exigente e com recuperação de público, o que é para nós sintoma de que cumprimos aquilo que prometêramos ao aficionado e ao público em geral. Como em tudo na vida, há altos e baixos, esta temporada teve-os também. Contudo, os pontos altos superaram claramente o único ponto baixo em termos de expectavas criadas a (corrida de 5 de Julho).

 

“A temporada ficou em linha com as expectativas criadas”

 

T - Esta foi uma temporada superou ou ficou abaixo das expectativas?

RBV - Porque queremos sempre mais e melhor, diríamos que a temporada ficou em linha com as expectativas criadas. Todavia, vários abonados e aficionados nos felicitaram dizendo que a temporada de 2018 foi uma das melhores neste trajecto pós-reinauguração, iniciado em 2006.

T - Logo no início intitulou-se esta temporada no Campo Pequeno como torista, considera que foi de facto uma temporada digna desse nome? Porquê?

RBV - Embora o Campo Pequeno tenha de ter em atenção a variedade de gostos do púbico que frequenta a primeira praça do país, está claro que em 12 corridas de toiros, ao saírem à arena reses das ganadarias Dr. António Silva, Pinto Barreiros, São Torcato, Veiga Teixeira, Murteira Grave, Passanha, António Charrua, Vinhas, Ribeiro Telles, Vale do Sorraia, fica claro o acentuado pendor torista da temporada pois 9 em 12 corridas, ou seja 75% dos toiros lidados no Campo Pequeno provinha de ganadarias toristas.

 

“Os toiros do lote de José Mari Manzananres, hoje, não teriam sido sortedos.”

 

T - Se fosse hoje, e sabendo como reagiram os aficionados, manteria aqueles touros para Morante e Manzanares? Ou que outra atitude teria? Teria à hora do sorteio deitado a corrida abaixo?

RBV - A posição do Campo Pequeno sobre os factos ocorridos em 5 de Julho, foi objecto de entrevistas que dei e de um comunicado da empresa, no dia seguinte à corrida. Ainda assim e apesar de para a empresa este ser um assunto encerrado, diria que os toiros do lote de José Mari Manzananres, hoje, não teriam sido sortedos.

T - O Rui foi matador, agora é empresário, mas considera justo para os aficionados portugueses que os matadores espanhóis venham a Portugal lidar touros bastante afeitados e muitas vezes abaixo dos mínimos de apresentação?

RBV - Este é um juízo de valor que você faz e do qual eu não partilho.

T - Quando ouviu um Campo Pequeno praticamente cheio a assobiar, o que lhe passou pela cabeça?

RBV - Manter a tranquilidade…

T - O toureio a pé. Quer mais matadores na próxima temporada? Ou há que ser prudente e pragmático?

RBV - Não defini ainda as linhas gerais da temporada de 2019, nem o farei provavelmente até final deste ano.

T - A meio da temporada realizou-se uma corrida extra abono onde actuaram toureiros menos rodados. Foi de facto uma oportunidade ou outros “valores” falaram mais alto?

RBV - Com toda a franqueza, não entendo o sentido da sua pergunta. Nomeadamente quanto “a ter sido uma oportunidade ou outros valores falarem mais alto”. Alguém tem dúvidas de que foi uma corrida de oportunidade, com um magnífico curro de toiros? Quem teve unhas tocou guitarra, como se costuma dizer. E quem triunfou, foi repetido na corrida de Gala, como fora prometido.

T - Durante esta temporada muito se falou, mais uma vez, sobre a ausência de Diego Ventura no ano em que comemorava 20 anos de alternativa, volto a fazer-lhe a mesma pergunta que o ano passado de que lado está a “teimosia” maior? E quer-nos contar o que realmente se passa para Ventura não estar no Campo Pequeno?

RBV - Numa contratação, cada parte tem o direito e o dever de defender as suas posições. Há acordo se houver convergência e um bom acordo é aquele que é bom para as duas partes. No caso, não foi possível chegar a acordo que, espero que aconteça brevemente. De outra vez será…não há drama nenhum nisso.

 

“Houve uma recuperação de público na ordem dos 13 %, em relação à temporada anterior”

 

T - Quantos espectadores no total da temporada taurina registou o Campo Pequeno? Como analisa este número?

RBV - É com grande prazer que lhe posso acrescentar que houve uma recuperação de público no Campo Pequeno da ordem dos 13 %, em relação à temporada anterior. Esta recuperação deve-se ao interesse dos cartéis e ao esforço de promoção que a empresa fez ao longo de toda a temporada.

 

"O público vem ao campo Pequeno porque os cartéis que apresentamos são motivadores."

 

T - Alguns dizem que o Campo Pequeno tem boas entradas de público por continuar a ser moda e “chic”. Mas eu perguntava-lhe se é mesmo isto ou é de facto os cartéis apresentados que têm levado o publico a Lisboa?

RBV - Não penso assim. O público vem ao campo Pequeno porque os cartéis que apresentamos são motivadores.

T - Em termos económicos, esta temporada foi rentável?

RBV - O espectáculo tauromáquico é um espectáculo com uma margem económico-financeira muito pequena. É mais fácil perder que ganhar dinheiro. Foi uma temporada equilibrada.

 

"Um atentado a uma das formas de cultura mais enraizadas e queridas pelos portugueses"

 

T - Como encara a questão do IVA. Imagina uma corrida ser taxada a 13 e um concerto a 6, numa praça de touros?

RBV - Negativamente discriminatória, um atentado a uma das formas de cultura mais enraizadas e queridas pelos portugueses. Inconstitucional e, assim sendo, a merecer a atenção do Tribunal Constitucional. Espero que o senhor Presidente da República, como eminente constitucionalista que é, se detenha a analisar esta questão e exerça a sua magistratura de influência para reparar esta injustiça e reconduzir esta questão às balizas constitucionais.

 

"Relativamente ao senhor Primeiro-Ministro, a sua atitude também não me agrada, mas os seus serpenteios, parecem já estar a causar fracturas no Partido Socialista"

 

T - E já agora, como vê as declarações da Ministra da Cultura e agora também do Primeiro-Ministro?

RBV - A Ministra é determinada na sua teimosia, exacerbando os seus valores e convicções pessoais e pondo-os à frente da isenção que deve, não só ser apanágio dos titulares de cargos públicos, sendo o que ocupa, um dos mais importantes da hierarquia nacional, pois trata-se de um cargo de Governo e, ainda por cima, Ministro. Deveria parar um pouco para pensar e por as razões de Estado à frente das convicções pessoais (que respeitamos, aliás). Relativamente ao senhor Primeiro-Ministro, a sua atitude também não me agrada, nem como toureiro e como profissional da tauromaquia, mas os seus serpenteios, a que já estamos habituados, também parecem já estar a causar fracturas no Partido Socialista, seja pelas posições tomadas por históricos como por autarcas em actividade. As atitudes que vêm sendo tomadas reflectem como o Governo está refém das negociações e do equilíbrio instável a que o forçam Partidos como Bloco de Esquerda e o PAN.

T - Enquanto promotor, qual foi a corrida que mais o realizou? E porquê?

RBV - Cada corrida tem o seu aliciante particular. Mais…seja corrida seja novilhada…Cada corrida e uma aposta, umas vezes ganha outras vezes não. Qualquer corrida a que o publico corresponda e os artistas dêem o seu melhor e triunfem, é para mim uma corrida que me realiza.

T - Quem é para Rui Bento, o triunfador desta temporada?

RBV - No caso do Campo Pequeno, quem elege os triunfadores da temporada não é a empresa. Esse papel cabe à crítica. Qualquer opinião que eu pudesse emitir poderia confundir-se com uma opinião da empresa e não vejo necessidade de entrar por esses caminhos. Posso dizer que foi uma temporada de emergência de novos valores, isso, sem dúvida.

 

Na segunda parte da entrevista, a não perder Rui Bento afirma que “os diversos intervenientes da festa mais consciencializados sobre o momento delicado de contestação que a tauromaquia atravessa”. Uma segunda parte a não perder esta sexta-feira no Toureio.pt

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