“O Público - na Festa de Toiros”

Uma primeira palavra para enaltecer o excelente trabalho da conjugação perfeita que foi a organização do Dia da Tauromaquia no passado 23 de Fevereiro no Campo Pequeno, verdadeira monumental do toureio no nosso País. Todos aqueles que integraram a organização superiormente dirigida pela PRÓTOIRO, com o inestimável apoio dos toureiros, cavaleiros, forcados, ganadeiros, empresários e aficionados, estão de parabéns porque a iniciativa valeu a pena. A demonstração viva de tudo aquilo que faz parte do toureio a pé e a cavalo, com as tauromaquias populares, os forcados, as escolas de toureio e as tertúlias e clubes taurinos, tornaram-se numa verdadeira ”mostra” da Cultura Portuguesa ligada ao toiro bravo, e que dará sem dúvida mais alento para continuar o caminho já iniciado. A entrega de todos os participantes e o entusiasmo do público conseguiram a simbiose perfeita que redundou no enorme êxito alcançado, e pensamos terá contribuído para relançar os propósitos e objectivos tendentes a uma nova temporada que galvanize os artistas e aficionados, todos aqueles que gostam da Tauromaquia no seu todo.

Mas acima de tudo foi o público aquele que deu o colorido e a emoção ao dia maior da celebração tauromáquica em Portugal, porque afinal é o público, a multidão de aficionados e não aficionados presentes que respeitam os valores da Festa de toiros, que são a sua alma e a sua razão de ser.

Aquele mesmo público que encheu a praça da minha terra nos anos quentes da chamada polémica de Barrancos de 1997 a 2001, o que sem medos enfrentou e venceu quem apenas queria destruir uma realidade cultural diferente e ligada á Tauromaquia.

Convém atentar no exemplo dos barranquenhos, na sua forma identitária de estar na vida e defender os seus valores. Foram ajudados por gente de lá e de cá, de todos os lugares do nosso Portugal e do mundo taurino, deram as mãos e numa perfeita união defenderam o seu património que estava a ser atacado por forças externas, urbanas e fundamentalistas contra um mundo rural que apenas protegia aquilo que lhe tinham legado os seus antepassados e era a sua razão de ser.

Nessa altura houve estratégia e organização, hoje como nessa época sinto um orgulho enorme em ter participado na direcção daquela luta vitoriosa do meu povo, de todos os que nos apoiaram e em que ficou a ganhar a cultura deste País e a Tauromaquia no seu todo.

Bastará afirmar que na tauromaquia portuguesa em termos de adesão e assistência do público, houve um antes e um depois de Barrancos, perdoem-me a imodéstia!

Mas não há públicos iguais…fala-se do público e dos silêncios da Maestranza de Sevilla, dos entendidos da Monumental de Las Ventas de Madrid com os seus aplausos ou protestos, das peñas e do colorido de Pamplona, do entusiasmo e entrega dos aficionados da Monumental Plaza México, e do respeito e conhecimento da afición francesa dos Coliseus Romanos de Nimes a Arles.

E aqui no nosso País, o que se passa?

Vemos salvo raras excepções, banalizar-se aquilo que deveria ser premiar o mérito da faena. Rara é a corrida em que os intervenientes não dão a volta á arena, contando com a condescendência da autoridade e do próprio público que muitas vezes se alheia do veredicto a conceder.

Isto além dos “sapientes opinadores” que a cada momento se armam em treinadores de bancada, criticam e dão orientações aos artistas que na arena estão a lidar as reses, só atrapalhando e gerando confusão sem o mínimo respeito por todos os intervenientes no espectáculo.

Se calhar fazia-nos bem um pouco de humildade e discernimento e aprender com uma afición, a francesa e o seu exemplar modo de entender a tauromaquia feita de conhecimento, e de que nos dá testemunho o intelectual, catedrático de Línguas Clássicas, Doutor em Antropologia Cultural  e aficionado militante taurino François Zumbiehl, quando salienta os três pilares da afición daquele taurino País:

1º- O manifesto respeito pelo toiro e a exigência dos três tércios da lide (em França), especialmente a sorte de varas.

2º- A sua implicação em todo o processo da lide, o seu empenho na organização das feiras, e o peso que a sua opinião tem.

3º- A sua humildade e o seu interesse em aprender. O espectador francês não está convencido que sabe tudo, documenta-se, lê e conserva-se permanentemente informado da realidade cultural taurina.

Além disso o público é indissociável da figura do aficionado, porque é este que alimenta o conhecimento e o interesse sobre o mundo do toiro.

Sem público não há corridas de toiros, é ele a verdadeira mola propulsora da economia e da coesão social do mundo taurino, sem ele não haveria aplausos, alegria e porque não, protestos na praça. Os artistas não teriam ensejo de mostrar o seu valor, a sua arte e reivindicar o almejado triunfo.

Com toda a frontalidade, temos que referir a importância do papel do público, face ao desenrolar do espectáculo tauromáquico, bem como as suas reacções no decurso do mesmo.

Escrevi estas linhas baseado em opiniões insuspeitas de reputados especialistas na matéria, de profundos conhecedores do meio taurino e amantes da festa de toiros. Este é o momento de tomar decisões e observar novos comportamentos. Inicia-se uma nova temporada taurina e é agora que devemos repensar a nossa atitude como público aficionado em relação á própria corrida de toiros.

Possivelmente neste momento estamos a precisar de um novo Barrancos, de uma pedrada no charco que nos desperte e nos mentalize para novos desafios, sabendo que apenas todos juntos teremos a força necessária para defender o que é nosso. A Tauromaquia só teria a ganhar!

Finalizo salientando três pedras basilares que deverão presidir ao nosso posicionamento visando salvaguardar o futuro da Tauromaquia: respeito, conhecimento e verdade.

Go to top