Lisboa: Deixem passar os meninos…

Com frequência se pensa que os espectáculos de oportunidades são menores no que toca a sua qualidade, envolvencia e emoção. Numa fase em que os mais antigos (na esmagadora maioria) já enjoam com o seu estilo e concepção do toureio mais que visto e revisto, a maior parte dos novos (já profissionais), nada acrescenta se não sai o oponente que dê brilho aos “números” que trabalha em casa, resultou uma verdadeira lufada de esperança e ar fresco a novilhada de dia 19 de Setembro no Campo Pequeno.

Foi uma corrida e pêras, houve seriedade, criatividade, algum oficio, competição, emoção e por diversas vezes muito e sério toureio, tanto a pé como a cavalo. Mas sobretudo respirou-se aficion, e toreria.

Muito culpados do êxito da noite foram os novilhos de Paulo Caetano, que devia ter voltado a agradecer os aplausos naquela arena, agora pelos produtos enviados. Mas o publico desinformado que foi criado e cultivado nos últimos trinta anos, leva a que estas injustiças aconteçam. Foi já no ultimo e por iniciativa do toureiro de turno que se vislumbrou a merecida volta, mas o ganadero ficou entre tábuas…é o público que tem de pedir, porque é o grande juiz! (Mas quando não sabe…)

Paulo D’Azambuja mostrou verdura a mais para pisar uma arena da responsabilidade do Campo Pequeno. Não entendeu o novilho, teve dificuldade com as montadas,melhorou no final da actuação,mas não convenceu. teve isso sim muita vergonha toureira e respeitosamente agradeceu nos médios e retirou-se sem dar volta.

A cavalo sobressaiu David Gomes numa actuação impecável, onde fez tudo bem feito, desde a escolha dos terrenos, a forma como bregou e ligou a actuação entre ferros e ao público. Evidenciou a “tarimba” que Espanha dá e saiu de Lisboa com uma das mais importantes actuações da temporada 2013 na Catedral. Apenas um senão de alguma velocidade a mais no momento da reunião para ferro em algumas execuções. De resto triunfou com muita força e consistência. Mas atenção…nada de alternativas apressadas. A alternativa é um momento de passagem e ratificação de aptidão, não um fim comercial. Recordem que a maioria das figuras já o era (o público já ia vê-los!!) quando chegaram à prova, os que assim não entenderam e se precipitaram, a maioria, está num montão secundário.

Parreirita Cigano deixou bons sinais. Para amador, mostrou critério, desembaraço com as montadas e sentido de lide, falta mais placeamento e rodagem em publico para jogar com as bancadas. A ver no futuro, também com calma. Não comprometeu.

Nas pegas ficou patente a “verdura” dos Amadores de Arruda dos Vinhos, muitas lacunas a nível das ajudas, tornaram emotivas pegas que não o deveriam ser se bem executadas em toda a fila. Foram caras Fábio Correia (2ª), Bruno Silva e Luis Lourenço (ambos à 1ª), sendo os elementos que praticamente seguraram a noite do Grupo.

A pé, uma noite de competição saudável, de toureiros que tinham ali a hipótese sonhada, de mestres que sabiam que havia ali uma disputa entre escolas, mas sobretudo uma esperança enorme de todos em que a jornada constituísse mais uma afirmação de vida para o toureio a pé Português. É URGENTE que o grande publico se ligue, entenda, apoie e acarinhe estes muitos miúdos que vêem no capote e na muleta o brinquedo para dar largas à sua arte e um instrumento para uma vida profissional. Temos de os vir para que as empresas os ponham…pode ser que nos entusiasmem.

Assim como nos entusiasmaram durante a noite da passada quinta-feira. Notória a diferença de placeamento e rodagem entre os alunos. Os tres deixaram boas indicações e mostraram um grau de aprendizagem elevado no maneio do capote, diversificado, a utilizarem os quites que lhes correspondiam, a repetir lances. Depois veio a diferença entre eles quer nas bandarilhas, quer na faena de muleta.

João Martins (Escola José Falcão – V. F. Xira), andou diligente com o melhor novilho de pé, variado por ambos lados, “trasteou” até ao quase ao limite físico do bravo Caetano, com maior predominância dos terrenos de tercios para palco de actuação. Duas magnificas series de naturais que puxaram de novo a noite para cima e uma pela direita foram o que de melhor fez. Faltou mais rodagem para se acoplar melhor à cadencia de investida e ajudar o novilho a deitar o que tinha dentro. Também os intervalos entre “tandas” poderiam ter sido maiores para o desafogar. O oficio virá com o tempo.

Ruben Correia (Escola de toureio da Moita do Ribatejo) é nitidamente os menos placeado mas esteve igual de ganas e raça. Entregou-se numa lide composta e ligada, por ambos pitóns mostrou facilidade e arrimou-se. Tem duas series profundas e com mando (a estatura alta dificulta ainda mais a profundidade dos passes). Faltou ligar-se mais ao publico e jogar com as respostas vindas da bancada. De qualquer forma foi uma actuação muito importante e apontar ao futuro, deste jovem da Escola da Moita.

O mais rodado dos tres foi claramente o que mais sobre aproveitar o resultado do sorteio. Apertou com uma afarolada em sorte de gaiola perfeita, a alegrar e aguentar de joelhos a investida do novilho desde o corredor dos curros. Agarrou o publico aí, mostrou (como todos) facilidade com o capote e com as bandarilhas (também Martins), mas com estas esteve mais “produzido”. Aproveitou o novilho e terminou o tercio com um par na cadeira que prendeu o público. Seguiu-se faena confiada, com mando, temple nas tandas a denotar o percurso feito até aqui e a rodagem que os triunfos e os fracassos em Espanha trazem, com confiança. Faena ligada por ambos pitóns com maior potabilidade o direito, mas com o esquerdo a servir no inicio para vermos a mão do coração (e que coração!) do jovem Peseiro. Tem pinta o “miúdo”. Tem figura de toureiro…oxalá tenha sorte. Em Lisboa triunfou forte!

Outro triunfador forte do toureio a pé foi o bandarilheiro João Ferreira que no de Rúben Correia cravou dois pares de poder e plástica, o segundo a “deixar-se ver” em “todo o alto”. O público reagiu e foi obrigado, com salero, a “desmonterar-se”.

Em suma, noite bonita e de esperança para os aficionados…pena que nem todos o sejam ao ponto de admitir que, nos espectáculos  dos “miúdos” se vê muitas vezes, melhor e mais serio toureio…ali ainda não há figuras na arena, nem figurinhas por fora… coladas aos toureiros.
Dirigiu o Sr. Manuel Barros, com embolação e ferragem da dupla Simões e Alcachão (a dupla que forneceu as rosas, que Morante utilizou na sorte da cadeira da Goyesca de Ronda, este mês, em que se encerrou com seis toiros. Olé!!!) e abrilhantou com muito agrado de todos a aficionadissima banda da Nazaré.

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