“O futuro da festa está nas mãos dos empresários e dos toureiros em conseguirem de uma vez por todas criarem rivalidade”, diz Manuel Dias Gomes ao Toureio.pt

Manuel Dias Gomes foi em 2017 um dos matadores de touros que mais atuou em Portugal, e foi também um dos Triunfadores Toureio.pt, eleito pelos nossos leitores e aficionados. Motivos mais que suficientes para o entrevistarmos, pedido ao qual acedeu, tendo abordado a sua temporada, expetativas para a próxima temporada, o que poderá mudar na sua carreira, bem como abordando também o aspeto geral da tauromaquia nacional.

Uma entrevista para ler de seguida.

Toureio.pt (T) – Manuel, começo esta nossa conversa por lhe pedir que nos faça um balanço da sua temporada 2017.

Manuel Dias Gomes (MDG) – A temporada de 2017 foi a minha segunda temporada completa como matador de toiros e considero-a como uma temporada de aprendizagem, de evolução e de confirmação. Iniciou-se com actuações em determinados festivais taurinos com especial destaque para o festival Bullfest e o festival da Rádio Campanário em Vila Viçosa seguindo-se com triunfos em corridas como as da Figueira da Foz, Tomar, Aldeia da Ponte e Campo Pequeno. Sendo que o importante triunfo no Campo Pequeno, ao lado de Juan José Padilla, marcou a temporada de 2017 de Manuel Dias Gomes.

T – O número de espectáculos realizados, satisfez?

MDG – Estou contente embora ambicione muito mais. Mas para as poucas oportunidades que existem na actualidade creio que sou um afortunado em ter toureado com mais regularidade. Na temporada de 2017 actuei em 12 espectáculos taurinos e portanto estou contente por tido essas oportunidades.

T – O que faltou na sua temporada para ser a temporada perfeita?

 MDG – Sempre faltará algo para que uma temporada seja perfeita.

T – O que destaca de mais e menos positivo?

 MDG – O mais positivo, ter feito parte do regresso do toureio a pé noutras praças do nosso País e a minha actuação no dia 7 de Setembro no Campo Pequeno. Como menos positivo, os toiros que não investiram em algumas corridas.

T – Quais foram os maiores desafios desta temporada?

MDG – Desde o primeiro dia até ao último em que toureei, foi um constante desafio. Os meus maiores desafios foram evolucionar corrida após corrida e a oportunidade de competir com uma figura na praça mais importante do nosso País (Campo Pequeno).

T – O que lhe falta Manuel para de facto se afirmar em Espanha?

MDG – Que chegue a oportunidade da confirmação da alternativa em Madrid.

 

Infelizmente muitos companheiros quando triunfam também não são os mais premiados com contractos.

 

T – O Manuel nas suas actuações em Portugal tem triunfado, sente que os triunfos por cá não são premiados com contractos?

MDG – Não sou só eu que sinto isso na pele, infelizmente muitos companheiros quando triunfam também não são os mais premiados com contractos. Este ano esses triunfos foram premiados com contractos ainda que também poderia ter estado presente noutras praças. Para mim o importante é não defraudar a mim mesmo nem ao público, há que sair a uma praça com uma grande entrega que é o que o público pede e o que realmente me motiva para ser toureiro.

T – O Manuel durante todo ao ano toureia muitos tentaderos, sente-se melhor no campo ou em praça?

MDG – Os ganaderos portugueses tem sido um pilar importantíssimo na minha carreira, sem eles não teria conseguido evolucionar no meu toureio, sonhar com muletazos (faenas), desfrutar do campo e dos ambientes que se formam em torno a um dia de campo. Sinto-me orgulhoso de poder ser um dos toureiros que mais participa nos tentaderos em Portugal. Tento sentir-me de igual forma nos dois sítios, porque o que não fizer no campo nunca irei fazer na praça. Mas o tourear com mais regularidade em praça ajuda a que um toureiro possa ser cada vez mais autêntico como acontece tantas vezes num tentadero.

T – Já que falamos em tentaderos, qual foi o tentadero em que se sentiu mais realizado?

MDG – Não consigo dizer apenas um tentadero, este ano de 2017 houve momentos muito especiais no campo. Foi um ano muito intenso em termos de tentaderos e nos quais vivi e partilhei dias com grandes pessoas e com grandes toureiros que marcaram para sempre a nossa trajectória.

 

Em 2018 aguardo a minha confirmação como Matador de Toiros na Monumental de las Ventas

 

T – Falemos agora de 2018, que expectativas tem para a sua temporada em 2018?

MDG – Em 2018 aguardo a minha confirmação como Matador de Toiros na Monumental de las Ventas, espero poder conseguir conquistar esse passo.

T – Vai apostar mais em Espanha?

MDG – Não se trata de uma aposta, trata-se de que haja oportunidade para poder demonstrar tudo o que levo dentro e que poderão contar comigo para a temporada em Espanha.

T- A equipa irá manter-se a mesma?

MDG – A mudança surge no apoderamento, a partir desta temporada deixo de ser apoderado pelo Maestro Tomas Campuzano.

T – Falando agora um pouco mais da personalidade de Manuel, já todos sabemos que é uma pessoa calma, mas na arena também mantém essa calma ou é na arena que se liberta por completo?

MDG – Calma é fundamental em tudo na vida, e no toureio não é uma excepção.  Tento converter a minha calma em tourear com cadência e ritmo.

T – Que tipo de touro gosta de ter pela frente?

MDG – Um toiro bravo (que engloba variadíssimas características) mas que ao mesmo tempo tenha a nobreza suficiente para se entregar e submeter a um toureiro e assim expressar o que um toureiro sente.

T – Qual o touro a quem não conseguiu retirar toda a qualidade que ele tinha?

MDG – Naturalmente já me aconteceu que nem sempre tenho conseguido mas não posso permitir que isso aconteça. Muitas vezes, por circunstâncias, não conseguimos ter uma regularidade em retirar a qualidade de um toiro por falta de experiencia ou porque nem sempre o entendemos completamente.

 

Qualquer toureiro quer um toiro com trapio, portanto um toiro mais pequeno pode ter o mesmo ou mais trapio do que outro toiro maior.

 

T – Como vê algumas figuras do toureio mundial a pedir touros mais pequenos?

MDG – Não vejo que esta pergunta seja uma pergunta válida. Pedem um toiro com hechuras e com condições de toureabilidade. Qualquer toureiro quer um toiro com trapio, portanto um toiro mais pequeno pode ter o mesmo ou mais trapio do que outro toiro maior.

T – Se o Manuel fosse empresário e tivesse de escolher, entre o que o toureiro quer e o que o publico quer, para que lado pendia a balança?

MDG – O público é quem mantem a festa viva. Creio que tudo tem que ser equacionado. Quando um empresário tem aficion de verdade consegue chegar a esse equilíbrio entre o aficionado e os toureiros.

 

O futuro da festa está nas mãos dos empresários e dos toureiros em conseguirem de uma vez por todas criarem rivalidade, emoção e competição

 

T – Falemos agora no geral, como analisa o actual momento da tauromaquia em Portugal?

MDG – Deveríamos estar num momento de reflexão no que diz respeito à quantidade de espectáculos que se organizam apenas por dar e que na verdade não tem a paixão e a entrega que deveriam de ter de cara ao público. O futuro da festa está nas mãos dos empresários e dos toureiros em conseguirem de uma vez por todas criarem rivalidade, emoção e competição que tanta falta fazem na tauromaquia.

T – O toureio a pé está a renascer em Portugal ou é apenas uma pura ilusão de modas passageiras?

MDG – Penso que voltou a interessar ao público ver uma corrida mista, ou seja, ver uma corrida com toureio a pé. Ainda que existam muitos agentes da nossa festa que teimem em aceitar esta nova faceta do toureio a pé. Há que o cimentar muito mais, mas creio que a tauromaquia em Portugal não se limita apenas a cavaleiros e forcados, o toureio a pé tem dado grandes alegrias e grandes enchentes nos últimos anos.

T – Acha os aficionados portugueses devidamente conhecedores da festa?

MDG – Tivemos uma grande renovação na aficion portuguesa, isso é o melhor que nos pode acontecer. E temos muitos conhecedores mas todos os dias aprendemos e portanto é uma contínua conquista de conhecimentos com as corridas que se vão realizando.

T – O facto de não poder exercer a sua actividade de matador na íntegra em Portugal é frustrante? E Acredita que podemos voltar a ter a morte do touro na arena?

MDG – Tenho pena que não a possa exercer na íntegra. Dificilmente vejo o regresso da morte do toiro numa arena.

T – Há umas temporadas atrás um colega seu comentava que era difícil entrar nos cartéis em Portugal, porque não tinha touros para oferecer, nem trocas para fazer, partilha desta ideia?

MDG – Os próprios intervenientes da festa deveriam ser os primeiros a não permitir que isso suceda.

T – Foi um dos triunfadores Toureio.pt 2017 na escolha dos leitores. Qual a importância deste reconhecimento?

MDG – Sempre importante na medida em que é uma votação por parte dos aficionados que ao longo da temporada foram registando as actuações que mais impactaram.

T – Que mensagem quer deixar aos leitores do Toureio.pt?

MDG – Primeiro que tudo agradecer pelo Toureio.pt continuar a dignificar com o seu trabalho a nossa imprensa taurina.

E desejar uma excelente temporada de 2018 e agradecer profundamente aos leitores que me consideraram Matador triunfador da temporada 2017.

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