O toiro e as gentes da lezíria e da charneca

Li, recentemente, uma reflexão do Dr. Joaquim Grave acerca do toiro bravo.

Trata-se de um hino ao toiro de lide e à sua envolvência. Devia ser lida e discutida por toda a gente, incluindo quem tem que tomar decisões sobre esta matéria, talvez não dissesse tantas asneiras e já que como dizia Einstein – todos nós somos ignorantes, só que de coisas diferentes, – convinha que não fossemos ignorantes sobre matérias que tutelamos e dizer que Évora tem o único Museu Nacional a sul do Sado, não abona grandemente a favor da cultura e de quem a tutela.

Bastava saber que o rio Mira e o Sado são os únicos rios que correm para norte, isto é: nascem no Algarve e desaguam, um no Alentejo – o Mira, em Vila Nova de Milfontes e o outro em Setúbal. Por aqui se vê que Évora fica a alguns quilómetros a norte do Sado.

É uma pena estarmos tão mal entregues mas temos esperança de que havemos de dar a volta à situação.

Em Espanha, pediu-se aos aficionados para virem para a rua reclamarem os seus direitos de poder ter as actividades tauromáquicas de volta.

Pelos vistos correu bem mas a avaliar por exemplos noutras latitudes e por motivos diversos, as coisas descambam e depois a imagem ainda fica mais degradada. Há sempre grupos que gostam de se juntar às causas justas para se aproveitarem e as transformarem em causas indefensáveis.

Nós não precisamos nem de lideres oportunistas, nem de boleias de quem apenas se quer servir da tauromaquia para aparecer. Temos gente de bem que tem qualidade para nos liderar e serem nossos porta-vozes, junto de quem toma decisões.

A “nossa” Ministra deve ter sido aconselhada sobre não ser útil para ninguém, estar a armar guerras sem sentido e depois de se ter recusado a receber um barrete de forcados em Évora, reconsiderou a atitude e em Elvas recebeu um livro e um capote.

Será que foi só para parecer bem ou a senhora Ministra entendeu que os tempos mudam e é melhor um mau acordo que uma boa demanda?

Escrevo-vos com a noção de que, como disse a senhora DGS, não se pode ter regras específicas para cada actividade e como tal, no que diz respeito aos espectadores, não devemos esperar muito mais do que já está regulamentado para outros espectáculos. Haverá, com certeza, algumas especificidades para outros intervenientes na festa, mas já começa a tardar esse esclarecimento.

 Para fechar, foi só uma ordem e já está! Já para recomeçar, parece estar-se a inventar a roda…!

Se para quem não vive da festa e gosta só indo assistir, a coisa já está feia, imagino que para quem dela tira o seu sustento, a coisa está preta mesmo!

Os poderes públicos que não se esqueçam desses artistas e artífices que orbitam em volta da tauromaquia e dela retiram o seu ganha-pão, fazendo funcionar toda a micro economia associada. 

Esta gente, antes de mais, é um repositório de estórias e valores que deviam ser enquadrados e valorizados. Quando desaparecerem, como o que tem acontecido com os que já partiram, é uma parte da estória da lezíria e da charneca que desaparece.

Já não existem os “Lopes Graça” nem os “Giacommeti”, para lhe recolherem os saberes e as vivências.

Esta cultura não é de somenos importância, é o modo de vida de uma boa parte das populações da lezíria ribatejana e da charneca alentejana. Um território que se confunde com as gentes ignoradas pelo poder central, desde sempre. Não se trata de serem estes ou aqueles políticos. Sempre foi assim! Ricos em cultura, bons no coração, mas sempre ignorados.

Esperemos que, mais dia menos dia, o seu trabalho volte a ser valorizado pelo que decerto voltaremos a ver nas praças quer nos toiros, quer nos cavalos, nos capotes e nas moletas e que Deus reparta a sorte.