Quarta-feira, Agosto 10, 2022
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“Pequeno, é as pessoas não terem ambição e terem medo de ver a Festa de forma diferente!”, diz o empresário Rui Gato Rodrigues ao Toureio.pt

Rui Gato Rodrigues, da Casa do Toureio, concedeu uma entrevista ao Toureio.pt como balanço da temporada tauromáquica, que termina tradicionalmente a 1 de Novembro, relativamente à gestão das praças de touros, ao apoderamento de cavaleiros e ainda sobre os restantes serviços que a Casa do Toureio proporciona/disponibiliza aos agentes da Festa Brava.

Toureio.pt – A temporada terminou, pelo que lhe pergunto como avalia e que balanço faz da temporada tauromáquica para a Casa do Toureio nas suas mais distintas vertentes?

Rui Gato Rodrigues (RGR) – A temporada ainda não terminou, termina dia 1 de Novembro, como é tradição. Avalio a temporada da Casa do Toureio na vertente da organização de espetáculos de forma positiva, sendo o primeiro ano da empresa nesta área, creio que os aficionados acreditaram e perceberam que a nossa aposta base é o toiro, com trapio, com mobilidade, sem excesso de peso e se possível com bravura. Em termos económicos foi a temporada possível, pese embora a maior afluência de público do que em anos anteriores, o preço dos toiros também aumentou bastante, o que obrigou a alguma ginástica financeira da parte da empresa.

Quanto ao apoderamento, acho que foi um salto quantitativo e qualitativo. Os nossos toureiros Tiago Carreiras e Francisco F. Núncio estiveram em praça em 21 espetáculos, 10 o Tiago e 11 o Francisco, e o António Núncio que por motivos profissionais suspendeu a temporada também tinha vários espetáculos agendados. Compare com os números da temporada passada de ambos os cavaleiros e tem a sua resposta.

T Analisando agora a nível empresarial, foram promovidas pela empresa “Gato, Santos e Ortega, Lda”, qual foi o espetáculo que mais satisfez a empresa e o que resultou menos conseguido e porquê?

RGR – Quero esclarecer os leitores que, a empresa Gato, Santos & Ortega Lda. detém a marca registada Casa do Toureio, pelo que a empresa dá primazia a ser conhecida como “Casa do Toureio”.

O Espetáculo que mais satisfez a empresa foi a Corrida Concurso de Ganadarias promovida na Póvoa de São Miguel, houve toiros sérios, grandes pegas, e cavaleiros com ganas de triunfar, tudo isso e a afluência de público só podiam resultar num espetáculo que marcou a temporada.

Não posso deixar de salientar o excelente curro de Veiga Teixeira na Corrida da Amareleja, como há tempo não se via naquela praça.

O menos conseguido talvez o Festival de Beneficência a favor da Delegação da Cruz Vermelha de Safara e Sobral d’Adiça, pela pouca afluência de público que em grande parte se deveu aos 40º que se faziam sentir dia 19 de Agosto.

T – Esta empresa baseou mais a sua atividade no Alentejo interior, porquê? Eram as praças que estavam livre e sem interessados em gerir ou foi mesmo por convicção de gerir estas praças?

RGR – Baseou nesta zona, porque é a zona onde nasci e fui criado, onde fui Cabo do GFA de Safara e fundei o GFA da Póvoa de São Miguel, onde toda a gente me conhece e acredita no meu trabalho enquanto empresário tauromáquico, conheço os gostos das pessoas e isso ajuda muitíssimo.

Em todas as Praças onde organizámos espetáculos, fomos convidados pelas entidades que as gerem ou são proprietários, não concorremos a nenhuma Praça, por isso foi por convicção de ambas as partes.

T – Este ano a empresa promoveu espetáculos de cinco cavaleiros e cinco grupo de forcados, para cinco novilhos. Alguns aficionados criticaram este tipo de cartel, como viu essas críticas?

RGR – Correção, foi organizado um Festival com cinco cavaleiros e cinco grupos de forcados no Sobral d’Adiça, o intuito era dar oportunidades aos mais jovens e ajudar a Cruz Vemelha ao mesmo tempo, atuaram dois cavaleiros de Alternativa Ana Batista e Tiago Carreiras, dois praticantes Andreia Oliveira e Francisco Núncio e o amador Filipe Peseiro. Os forcados foram todos da zona e em boa hora aceitaram o convite, pois permitiu rodarem forcados mais novos e inexperientes. O outro espetáculo a que se refere foi na Aldeia da Luz e mais uma vez um Festival, 4 Cavaleiros, um de Alternativa e três praticantes, um novilheiro de seu nome Manuel Perera que vai dar que falar dentro de pouco, e mais uma vez quatro grupos de Forcados que aproveitaram para rodar malta mais nova.

Em ambos os novilhos que saíram à praça, foram seguramente muito mais dignos que muitos toiros que foram aprovados para Corridas de Toiros.

A crítica é livre e não paga bilhete, mas se isto não é promover a Festa e proporcionar aos mais novos oportunidades, expliquem-me o que é se faz favor.

T – E o Rui, enquanto antigo forcado, considera que este tipo de cartel dignifica o espetáculo em si?

RGR – Quem me dera a mim quando me iniciei como forcado ter estas oportunidades, quanto à dignidade do espetáculo já lhe respondi na anterior pergunta…

T – A aposta no toiro-toiro marcou a temporada da empresa…

RGR – Quanto a isso parece-me que não restam dúvidas!

Veiga Teixeira, José Luis Pereda, La Dehesilla, Fontembro, Monte Cadema, e nos Festivais duas novilhadas de Lopes Branco e Prudêncio.

Este ano acho que a empresa acertou no que escolheu no campo, porque tem de se ir ao campo, não se pode comprar por catálogo, nem acreditar no Pai Natal.

T – Esta temporada seguiu-se a uma separação entre Rui Gato e Vasco Durão, o que correu mal nesta união?

RGR – Nada, cada um seguiu o seu caminho.

T – O que é certo, é que a equipa que acompanha o Rui, nomeadamente Miguel Ortega Cláudio e António Santos, também este ano acompanhou Vasco Durão… o problema foi mesmo só com Rui Gato…

RGR – Não houve problema nenhum como lhe referi anteriormente, e a única pessoa que faz parte da empresa juntamente comigo é o Miguel. Todas as outras questões terá de colocar às pessoas que referiu.

T – Considera que conseguiu-se realizar os espetáculo com um carimbo próprio?

RGR – A afición é que tem de responder a essa pergunta, eu tenho um caminho e sei por onde vou e o que quero!!!

T – Analisando agora a Casa do Toureio propriamente dita, em 2017 representou dois toureiros Francisco Núncio e Tiago Carreiras. Perguntava-lhe se os objetivos delineados no início foram todos cumpridos?

Antes de mais frisar que são dois caminhos distintos, o Francisco Núncio e o António Núncio, começaram connosco como cavaleiros amadores, tiraram a prova de praticante em 2016, tendo o Francisco actuado em 7 espetáculos e o António em 11. Esta temporada delineámos uma temporada de crescimento dentro do patamar onde estão, o António teve de interromper a temporada como foi dito anteriormente, o Francisco atuou em 11 espetáculos, 1 novilhada, 3 festivais e 7 corridas de toiros, basta referir que teve pela frente toiros das Ganadarias Veiga Teixeira, Silva Herculano, David Ribeiro Telles, Charrua, Ernesto de Castro, Prudêncio, Vinhas e para rematar Murteira Grave e Miura, uma temporada em que se viu maior maturidade e uma linha de toureio muito própria.

O Tiago Carreiras está a seguir outro caminho, cavaleiro de Alternativa com experiencia apesar dos seus 25 anos, não quer voltar a cometer erros do passado, e sabe que o caminho faz-se caminhando, o ano passado atuou em 5 espetáculos, este ano actuou em 10 ocasiões o dobro do ano passado, 4 Festivais e 6 Corridas de Toiros, com dois cavalos novos na quadra que estão a crescer como cavalos toureiros de dia para dia, fizemos uma temporada em crescendo e que esperamos seja ainda melhor para o ano. Tal como o Francisco toureou ganadarias duras e que mandam muita gente para casa, Veiga Teixeira, Ernesto de Castro, Pereda, São Martinho, Silva Herculano, Prudêncio, António dos Reis…

T – O que poderia ter acontecido, que não chegou a acontecer a nível dos apoderamentos?

RGR – Quanto ao Francisco, correu como planeado, conseguimos fazer uma temporada em que começámos a tourear novilhos e terminámos a tourear Miuras em Alcácer, que mais se pode pedir…

Quanto ao Tiago, foi uma época de crescimento, em relação ao ano passado, mas poderia ter sido ainda melhor, ambicionava os 12 espetáculos esta temporada.

T – Considera que Tiago Carreiras merecia mais oportunidades do que aquelas que teve? Qual é o problema?

Considero que o Tiago é um miúdo que trabalha todos os dias para voltar ao patamar que atingiu quando tirou a alternativa, na altura com o cavalo estrela “Quirino”, mas o passado só dá oportunidades a alguns, por isso ele tem de provar em cada corrida que merece estar em mais, tem de dar sempre o máximo para ter oportunidades que outros têm com o mínimo esforço.

Problema? Primeiro, aqui na Casa do Toureio não fazemos trocas de corridas, agora eu vou aí, depois vens tu aqui… Segundo, alguns empresários contratam-te em Julho para uma Corrida em Setembro e descontratam –te em Agosto, é conforme a maré!

T – Já que falamos da Casa do Toureio, que foi apresentada em 2015, com um grande projeto, com expetativas elevadas, alguns apoderamentos, muitos serviços oferecidos aos toureiros, mas depois tudo foi mais pequeno, o que falhou em relação ao inicialmente pensado?

RGR – A Casa do Toureio foi apresentada em Dezembro de 2015, as expetativas se alguém as elevou não fomos nós, apoderámos o Matador Paco Velasquez que até sair da Casa do Toureio levava um Festival toureado e mais duas corridas agendadas até Junho de 2016, o João Salgueiro da Costa ao fim de uma eternidade, conseguiu tirar a Alternativa que toda a gente dizia ser impossível, também achou por bem seguir outro caminho depois de atuar em 3 espetáculos, sendo o ultimo em Julho de 2016 no Campo Pequeno.

 Os amadores Francisco e António Núncio tiraram ambos a prova de praticante em 2016 e nessa temporada vão os dois ao Campo Pequeno, o Francisco faz em 2017 uma temporada extraordinária, o Tiago na primeira temporada connosco faz 10 espetáculos.

 Os serviços oferecidos aos toureiros mantêm-se, gestão das páginas oficiais no Facebook dos toureiros, gestão da comunicação com os OCS, nutricionismo e preparação física quando os artistas sentirem necessidade de recorrer a estas valências.

Pequeno, é as pessoas não terem ambição e terem medo de ver a Festa de forma diferente!

T – Considera que na Tauromaquia portuguesa por vezes aparecem projetos credíveis e com consistência, mas que por não interessarem a alguns, não lhe é permitido avançar?

RGR – Considero que o trabalho, a credibilidade e a consistência, mais cedo ou mais tarde acabam por triunfar.

T – No caso da Casa do Toureio, que como já referimos oferecia aos seus clientes vários serviços, foram esses serviços que não interessaram aos toureiros e empresários? Praticam preços muito altos? Ou temos toureiros e empresários que querem ser servidos com pouca remuneração?

RGR – Os serviços que oferecíamos na Casa do Toureio eram para os toureiros que apoderávamos, quanto às empresas, apenas uma empresa contratou durante a temporada de 2016 os serviços da equipa médica, para os 7 espetáculos que organizou.

Em 2018, iremos ter mais serviços para as empresas e toureiros, que em breve serão conhecidos.

Os preços não são altos, para a qualidade do serviço prestado. Cada empresa e toureiro saberá do dinheiro que dispõe e quer gastar nestes serviços.

T – Como qualquer projeto é preciso haver financiamento, as corridas promovidas são a fonte para financiar a Casa do Toureio?

RGR – O financiamento é formado por várias fontes, daí os vários serviços disponibilizados, as corridas não são a fonte principal.

T – Muitos aficionados dizem que na festa, por parte de todos os intervenientes, há uma falta de planeamento. Considera isso?

RGR – Considero que em todas a profissões deve haver planeamento, antes de chegar à fase execução, de modo a evitar o mais possível o erro e poder ter sucesso. Se alguns não planeiam, vão errar seguramente mais. Citando Agostinho da Silva “Se aprenderes com os erros do passado, o futuro será seguramente melhor”.

T – Falando agora de 2018, a que praças pensa concorrer e o que tem já projetado a nível empresarial?

RGR – Não penso concorrer a nenhuma, se for convidado sentar-me-ei à mesa e discutirei o negócio com quem de direito.

T – No que respeita aos apoderamentos, em 2018 vão manter-se Tiago Carreiras e Francisco Núncio?

RGR – Em Novembro, como habitualmente irei reunir com os toureiros e ver se estamos todos satisfeitos com a parceria, se assim for com toda certeza que continuaremos o nosso caminho lado a lado.

T – Poderá haver mais algum toureiro na carteira em 2018?

RGR – Se for do interesse de ambas as partes, porque não??

T – E será para o ano que a Casa do Toureio leva Francisco Núncio à alternativa? Ou ainda é prematuro?

RGR – Como referi, vamos sentar-nos à mesa, analisar esta temporada e depois decidir o que queremos para a próxima, não podemos queimar etapas no crescimento de um cavaleiro, isso é o mais importante para o futuro dele.

T – Falando agora no geral, como vê o estado atual da festa brava em Portugal?

RGR – A minha visão é que é uma Festa que necessita sangue novo à mistura com a experiência dos mais antigos no que respeita à parte empresarial, deveria haver mais parcerias a nível empresarial.

As Praças de toiros atuais têm muito pouca comodidade e em seu redor não têm nenhum atrativo (lojas, restaurantes, cinemas, animação), os sanitários na maioria delas são iguais aos do tempo do meu avô, para ir ao bar tem de esperar pelo terminar da lide e respetiva pega, demora 10 minutos a ser atendido, quando vai para o seu lugar não lhe é permitido porque a lide seguinte já iniciou, tem de ver essa lide de pé ao lado do porteiro, acha que isso não tem influência entre quem tem de decidir ir ao futebol ou ir aos toiros??

Necessitamos sponsors de renome ao nosso lado, mas para isso temos de lhes mostrar que a Tauromaquia é um negócio que vale a pena e que movimenta milhares de euros. Para isso se calhar temos de reduzir espetáculos, vejo o número de 150 como ideal, de modo a que cada espetáculo tenha mais qualidade e mais retorno financeiro para todos.

Quanto a artistas e ganadarias, acho que está na altura de os artistas mais velhos reduzirem o seu número de atuações, para que os mais novos possam dar o salto para outro patamar, só assim será possível renovar a Festa, os Grupos de Forcados Amadores talvez sejam em demasia, mas sinceramente não sei quem está a mais, há de tudo como na feira, a cabana brava portuguesa atravessa um excelente momento e recomenda-se, no entanto os ganaderos terão de chegar a um equilíbrio de reses bravas, para que a escassez ou o excesso de toiros não aconteça com tanta frequência e não exista uma tão grande oscilação de preços.

T – Em cada espetáculo que promove, paga uma verba para a PróToiro, concorda com esse pagamento? Como tem visto o trabalho desta federação?

RGR – Concordo com esse pagamento, no entanto esse dinheiro tem de ser gerido com critério e na Defesa da Festa Brava. Um bom trabalho, com lacunas que devem ser colmatadas através de contributos da sociedade civil, que não estão inseridos nas Associações que compõem a Protoiro.

T – Considera que a festa precisa de reformas rápidas? Quais?

RGR – Sim. Redução da burocracia e valores das licenças a pagar ao IGAC por cada espetáculo, redução do IVA nos bilhetes, obrigatoriedade das enfermarias das praças e respetivas equipas médicas terem todas as condições para poderem atuar em caso de acidente. As praças de toiros só devem dar espetáculos se reunirem todas as condições de segurança para espetadores e intervenientes, e todas as condições de bem-estar animal, nomeadamente os curros, caso isso não aconteça ficarão encerradas.

T – A terminar, que expetativas tem para 2018 para a tauromaquia em  geral?

RGR – Espero que as reformas que apontei, anteriormente sejam rapidamente efetuadas, para que a Festa tenha um futuro melhor.

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