Quarta-feira, Fevereiro 21, 2024
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Toiro – toiro, a sério, em Alcochete

Em Alcochete, ontem, dia 14 de Agosto, viveu-se o que dá significado ao “apodo” da feira taurina da terra: a festa do toiro – toiro.

Saíram à arena nesta noite seis bravos toiros de duas ganadarias consagradas: três Vinhas, com encaste Santacoloma e três Palhas, com sangue de Pinto Barreiros, Oliveira, Contreras e Parladé, uma mescla de sangues que dá, o que já vi de apelidados de “terroríficos”.

Os pesos rondavam os seiscentos quilos, sendo que três ultrapassavam mesmo essa marca e com idade, um, o que calhou a Luís Rouxinol Jr., faria seis anos em Setembro.

 Para enfrentar este curro excelentemente rematado, estavam os cavaleiros António Ribeiro Telles, Rui Salvador, Gilberto Filipe, Manuel Telles Bastos, Luís Rouxinol Jr. e António Prates.

Para os pegar, o que não se afigurava à partida tarefa fácil, estavam os Forcados Amadores de Montemor, cujo cabo é António Vacas de Carvalho e os da terra, os Amadores do Aposento do Barrete Verde, capitaneados por Marcelo Loia.

Para presenciar esta noite de toiros, os lugares da praça quase ficaram preenchidos por completo. Muito poucos ficaram vagos.

O espectáculo foi dirigido por Fábio Costa assessorado pelo veterinário Jorge Moreira da Silva.

Os toiros lidados na primeira parte foram recolhidos a cavalo, o que valeu alguns sustos aos campinos, provavelmente não habituados a espaços tão apertados como os de uma praça de toiros. Os da segunda foram recolhidos a pé, por outra dupla de campinos o que tornou as recolhas mais rápidas e eficazes.

António Ribeiro Telles teve pela frente um Palha de 585 quilos que recebe com dois ferros, sem grandes primores mas que ficam em seu sítio, e depois de mudar de montada toureia com acerto e crava quatro curtos a quarteio com o toiro a empregar-se até ao fim, sempre com “os rins duros”. O último curto é, talvez, o melhor da lide.

Coube ao grupo de Montemor pegar o primeiro da noite. Foi escalado para tal o forcado João da Câmara. O público ainda se revolvia nos tendidos após a lide de Telles, mas João da Câmara citou com tais vagares e tal toureria que calou o conclave. Quase se ouvia a respiração do forcado. O touro arranca como um bravo, sem mentir, humilha ao chegar ao forcado que se encaixa na cabeça do hastado e vai pelo grupo dentro que fecha como deve ser. Uma grande pega a um Palha. Estava bem lançada a corrida.

Volta para cavaleiro e forcado, com repetida ida ao centro da arena para agradecer.

Se fossem dos que se penduram em tudo para mais uma volta, aqui tinha acontecido.

O primeiro Vinhas, com 565 quilos, saiu a Rui Salvador.

O primeiro comprido foi sem grandes primores mas o segundo, sentindo o toiro de baixo do braço foi cravado de alto a baixo. Raramente se vêem compridos cravados assim.

Nos curtos, o toiro começou a vir a menos nas reuniões mas mantinha as mesmas ganas que o sangue lhe transmitia.

Nos curtos, soube aproveitar o que o toiro tinha para dar e com os quarteios umas vezes mais marcados que outras soube suplantar as dificuldades que o toiro ia demonstrando. Uma boa lide de Rui Salvador.

Para iniciar a prestação dos Amadores do Barrete Verde, saiu à arena José Rato.

Na primeira tentativa o grupo não conseguiu fechar-se mas na segunda, mais coeso, ajudou a concretizar uma boa pega que não foi fácil.

Volta para cavaleiro e forcado.

Gilberto Filipe teve pela frente um Palha com 620 quilos que foi recebido com três compridos a abrir e que preparou para os curtos onde entrando por direito, com a preocupação de cravar ao estribo, cravou uma série de curtos com verdade, terminando com um palmito de bonito efeito.

O toiro arrancava-se de qualquer lado e perseguia com afinco. Nas reuniões dava tudo o que tinha. Era mesmo um Palha!

Uma boa lide a um toiro que pedia contas.

Quanto à pega, Francisco Borges dos amadores de Montemor, foi o escolhido para resolver este problema.

Na primeira tentativa o toiro nem deu para respirar. Arrancou pronto, o forcado tentou fechar-se mas a velocidade e os derrotes não o permitiram. Na segunda tentativa, uma boa reunião, uma boa ajuda e muito coração, foi a receita para uma pega em grande.

Volta para cavaleiro, forcado e representante da ganadaria.

Um Vinhas com 610 quilos tinha sido sorteado para Manuel Telles Bastos. Começou por ser difícil arranjar sítio para cravar o primeiro comprido, que foi colocado sem grandes primores, mas no segundo o toiro foi mais claro e o ferro resultou melhor; nos curtos, toureou a quarteio e carregando a sorte, os ferros foram “ganhando som”. O toiro ficou diminuído fisicamente e isso via-se nas reuniões onde era preciso empregar-se mais a fundo. Chegou a cair com um lance de capote.

Telles Bastos fez o que pode e fez muito.

Para pegar este Vinhas saltou o cabo dos Forcados do Barrete Verde, Marcelo Loia.

Embora diminuído fisicamente nas arrancadas para o cavalo, tinha força, e de que maneira, para os forcados.

Marcelo Loia, forcado experiente recuou, templando a investida, alapou-se na cara do morlaco e o grupo, já nas tábuas, consumou a pega.

Volta para cavaleiro e forcado.

Luís Rouxinol Jr iria ter pela frente um Vinhas com 600 quilos e quase 6 anos, fá-los-ia em Setembro.

Esta caixa de surpresas é recebida numa sorte de gaiola no centro da praça que põe os espectadores em delírio e o coração do pai, Luís Rouxinol, num aperto.

O sangue jovem é assim mesmo!

O segundo comprido é cravado à tira, muito bem rematado. Passa para os curtos e com brega vistosa: umas vezes ladeando, outras vezes aguentando investidas mais desbragadas do toiro, sempre mantendo a compostura e revelando uma calma de profissional, entrando recto, quarteando-se num palmo de terreno e deixando ferros ao estribo. Tenta por mais que uma vez deixar uma marca da casa, um ferro em sorte de violino, o toiro não deixa mas no curto que encerra a lide consegue fazer com que esse violino toque a grande altura.

Boa exibição perante um toiro, com o sentido que a idade lhe dá.

Francisco Bissaia Barreto, dos de Montemor, também não conseguiu pegar à primeira. O toiro nem deixou que se concretizasse a reunião. Muito brusco e derrotando forte não deu hipóteses. À segunda tentativa, mudando os terrenos, recuou de modo a que a reunião se fizesse no seio do grupo e tornou tudo menos difícil. Dizer que seria mais fácil era um eufemismo.

Volta para cavaleiro e para os forcados da cara e o primeiro ajuda, Francisco Bissaia Barreto e António Pena Monteiro, respectivamente.

Fechou a noite um Palha de 595 quilos para ser toureado pelo jovem António Prates.

Foi recebido com dois ferros à tira sendo que nos curtos optou pelo toureio a quarteio carregando as sortes, muito do agrado do público. São quatro curtos num toiro com idade, peso terapio, como todos os outros e com arte. O Palha dá luta mas o jovem cavaleiro, para além de artista, sabe como chegar ao público e como tratar da investida do oponente que lhe calhou em sorte. É bom ver gente nova assim, a tourear com este sentido de lide. A praça ficou em alvoroço quando o António Prates saiu.

Fica ambiente de toiros no ar.

Pelos Forcados do Barrete Verde de Alcochete Saltou Diogo Amaro que tem uma alma, um querer e um saber fazer inversamente proporcional ao seu tamanho. Naquele corpo quase franzino, cabe um homem do tamanho do mundo.

Por duas vezes foi “derrotado” pela violência do Palha, mas na terceira vez foi ele que não deu hipótese ao toiro. Agarrado à córnea e ajudado com o desejo e o querer ficar com um grupo de amigos a ajudar, consumou a que deve ter sido a pega mais aplaudida da noite.

Volta para cavaleiro e forcado. Ambos não estavam pelos ajustes e não queriam tal distinção mas o público de Alcochete é grato a quem faz bem e fez com que a volta se desse, para que lhes fosse prestado tributo pelas actuações.

Depois de vermos nomes feitos como o António Telles, o Rui Salvador e o Gilberto Filipe como que a apadrinharem gente nova com o valor desta geração que se vai afirmando – o Manuel Telles Basto já mais maduro, o Rouxinol jr e agora o António Prates, estamos em querer que artistas de grande valor, não nos faltam. Quanto aos forcados, mau grado algumas vozes agoirentas, se estivessem hoje nesta praça, se calhar perceberiam que há muito mais coisas boas do que maus agoiros.

Lidaram-se e pegaram-se toiros – toiros, por grandes artistas e até foi bom ver alguns lances de capote dados com arte e aplaudidos pelo público.

Destas, venham mais!

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