Touro que ia tirando a vida ao ganadeiro Joaquim Grave será lidado quinta-feira no Campo Pequeno

Como noticiámos, a Praça de Touros do Campo Pequeno receberá, no próximo dia 6 de Agosto, mais uma corrida de touros. Uma corrida em que se irá assinalar os 20 anos de alternativa da cavaleira Ana Batista.

Ana Batista que alternará com Manuel Telles bastos e Luis Rouxinol Jr, sendo que as pegas estarão a cargo dos Amadores de Montemor e Vila Franca de Xira.

Nesta corrida serão lidados seis touros de Murteira Grave.

O Ganadeiro Joaquim Grave, através da página oficial da Ganadaria nas redes sociais, analisou cada touro que vai enviar para a principal praça do país:

“- Saleroso n.º 54 – 5 anos de idade, toiro negro mulato, gordo, compacto, reunido, harmonioso, baixo e com cara bem posta. Discreto no campo não se mete em discussões com os companheiros. Profundo, de mirada séria. Cara de praça de primeira categoria.

– Galope n.º 56 – 5 anos de idade, toiro negro bragado meano. Bom perfil, bem armado e grande trapio. Não é tão baixo quanto o anterior, não deixando por isso de ser harmonioso no seu conjunto. Cara de praça de primeira categoria.

– Azahar n.º 90 – 5 anos de idade, negro com cara, cornidelantero, não sendo o mais forte é dos mais sérios da corrida, pode bem com os kilos que tem. Sempre ocupa os últimos postos da hierarquia social no campo, o que não invalida que possa ter bravura sobrada… Toiro com história, sofreu várias cornadas dos companheiros, mas sempre se recuperou. Está sempre presente e desafiante…Não me parece que seja de meios termos! Cara de praça de primeira categoria.

– Diluviano n.º 99 – 5 anos de idade, toiro negro, de cara engatilhada, lindo por qualquer sitio que se olhe. Grande trapio, discreto no campo tendo, no entanto, já lesionado com cornada o companheiro 90 quando tinha um pitón sem a funda que lhe tinha caído. Forçando um senão neste toiro de uma lamina espectacular, não arrasta o rabo até ao chão como eu gosto, gastou as sedas do rabo no maneio do campo. Cara de praça de primeira categoria.

– Caribe n.º 40 – 4 anos de idade, toiro negro bragado corrido, salpicado, gargantillo, (burraco) de cara aberta, grande distância de pitón a pitón, forte. Toiro frentudo e algo zancudo (extremidades compridas, garupa desenvolvida e ossuda). Não é um toiro reunido, é anguloso, enxuto. Não é leader. Cara de praça de primeira categoria.

– Marismero n.º 44 – 4 anos de idade. Negro com grande cara. Bom, este tem uma história particular com o ganadero. Foi este mesmo que a 19 de Setembro de 2019, me deu uma cornada que podia ter sido fatal. Cumpriu a sua missão que foi investir e certeiramente atravessar-me a perna. Um dos seus derrotes posteriores acabou por me salvar e colocar-me as pernas em cima da parede onde estava pendurado. Encarei a situação como um aviso para que de futuro andasse com mais atenção. Este incidente, fez-me crescer como homem, aficionado e, sobretudo, como ganadero. O sangue com que reguei a terra que sinto e amo tornou-a mais livre para acolher os animais mais livres do mundo, pelo menos os que, de alguma forma, controlamos a sua criação. O musculo desgarrado deixou escapar um lamento seco que se escapou na poeira de um calor de final de Verão.

 Da mesma forma que José Tomás “dialogou” e agradeceu a Navegante o toiro que esteve a ponto de lhe tirar a vida em Aguascalientes, também o Marismero se uniu comigo para sempre. Os homens dos toiros, sobretudo os toureiros, sabem que os toiros cobram… De tempos a tempos cobram. A minha educação taurina não se surpreende que tenha que pagar um tributo. Ao dar-me a cornada deu-me também medo, deu-me coragem, deu-me dor, deu-me lágrimas, mas também um sorriso, deu-me esperança, paixão, dúvidas, também certezas, enfim, deu-me mais vida para voltar a pisar aquela terra com mais liberdade e, muito importante, deu mais conteúdo à forma como vejo e encaro o que faço apaixonadamente.

 Sei que estas palavras podem soar a muita terra, a muito sangue daquele que nos corre pelas entranhas. Mas isto da terra, do sangue, da pele, do suor e de tudo o que nos faz vibrar, é o que me assusta ver ausente desta humanidade absurda que ignora o seu atavismo que é, apenas e só, a força da nossa existência.

 Aprendemos sempre com os toiros e guardo-lhe um enorme carinho pela lição que me deu. Curioso o nome de Marismero que parece ter herdado dos seus antepassados, esses sim que há cem anos viviam nas autênticas marismas do Ribatejo, uma história, uma razão de ser, de terem sido cambiados para os montados alentejanos, para num verdadeiro sistema de produção extensiva, continuarem a serem os guardiões dos bosques e da biodiversidade e a defenderem um ecossistema absolutamente valioso para o mundo e para esta sociedade que, sob a égide dos sábios do asfalto e do alto da sua urbanidade, os despreza e combate. Constrange ver esta cambada de incultos.

Voltando ao Marismero 44, não sendo um toiro reunido, redondo, é mesmo um pouco basto, tem muito volume, penso que é o maior não só da corrida, mas também de toda a camada. Tem, no entanto, um galope extraordinário no campo, sem favores é o que mais gosto de ver galopar; fá-lo com ritmo, bascula, pescoço pendurado, elegância nos movimentos, élan nas passadas, corre entregado… Cara de praça de primeira categoria.

 O facto de haver quatro toiros de 5 anos vai trazer seriedade à corrida.

Espero vê-los a todos no Campo Pequeno! Grande abraço

Que Diós reparta suerte!                                                   

Galeana, Agosto de 2020.

Joaquim Grave”